"Sempre tive certa desconfiança em relação a conceitos que me pareçam muito fechados. Aliás, em latim, a etimologia da palavra conceito vem de 'concepire', que quer dizer fechado. Existe, então, no significado mesmo do termo conceito algo que é fechado. Segundo a minha hipótese, nós estamos vivendo um momento de mudança de paradigma. Mudança que se chama uma mudança societal. Parece-me, então, difícil conservar uma concepção, uma perspectiva sistemática baseada justamente nesses conceitos. É por isso que propus utilizar o que chamo de noções, de metáforas. São imagens, na verdade, que possuem um lado mais flexível, mais dinâmico e que me parecem, assim, mais conectadas com uma realidade social que é, ela mesma, flexível, dinâmica, fugitiva. A hipótese é, então, considerar que no século XIX, no qual a sociedade, no fundo, era mais estática, a ideia de uma abordagem conceitual era legítima e necessária. Atualmente, como se vive um momento que é fugidio, o melhor é utilizar instrumentos que sejam mais flexíveis. Essa é, resumidamente, a minha hipótese. Eu acho que a pesquisa científica ou acadêmica não pode mais ficar restrita a uma concepção, que é uma concepção, no fundo, dogmática, que se apoia unicamente sobre uma concepção simplificada de pesquisa. Ou seja, algo que seria, mais uma vez, muito sistemático, muito conceitual. Ao contrário, a pesquisa deve estar na escuta da vida social. Quando eu digo pesquisa, me refiro às ciências humanas e sociais e não, de modo geral, às ciências exatas. Nas nossas disciplinas, acho que se deve ter uma atitude que esteja de acordo com a vida. Somente se ela está de acordo com a vida social ela é realmente uma pesquisa. Senão, ela se torna dogmática. [...] A pesquisa só terá futuro se ela estiver de acordo com a vida social, se ela souber propor novas palavras, se ela souber propor novas metáforas, se ela souber propor novas intuições que são, aliás, a origem de todas as grandes descobertas. [...] Meu trabalho consiste em encontrar intuições que estejam de acordo com a vida social. Em francês, existe uma expressão popular que diz: 'avoir le nez creux' (ter o nariz aguçado). Ter o nariz aguçado quer dizer sentir, farejar. Aliás, eu tinha proposto essa imagem dizendo: o sociólogo deve ser um farejador social. Era uma fórmula meio trivial, mas era para chamar a atenção sobre o fato de que, como os animais, nós temos que farejar o que é a vida. Logo, não se pode fechá-la numa atitude demasiadamente conceitual. A especificidade mesmo da pesquisa, no fundo, é uma tentativa-erro. A verdadeira pesquisa, que não é dogmática, faz tentativas, mesmo se, às vezes, existam erros". 

Michel Maffesoli

 

Sugestões de leituras sobre cursos Populares:

BACCHETTO, João Galvão. Cursinhos Pré-Vestibulares Alternativos no Município de São Paulo (1991- 2001): A luta pela igualdade no acesso ao ensino superior. 2003. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo. 2003. 170f.

CASTRO, Clóves Alexandre de. Cursinhos alternativos e populares: movimentos territoriais de luta pelo acesso ao ensino público superior no Brasil. 2005. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente. 2005. 110f.

MENDES, Maíra Tavares. Cursinhos populares pré-universitários e educação popular: uma relação possível? In: XI Fórum de Leituras Paulo Freire, 2009, Porto Alegre. Anais... Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009.

PEREIRA, Thiago Ingrassia. Pré-Vestibulares Populares em Porto Alegre: na fronteira entre o público e o privado. 2007. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul. 2007. 167f.

PEREIRA, Thiago Ingrassia; RAIZER, Leandro;MEIRELLES, Mauro. A Luta pela Democratização do Acesso ao Ensino Superior: o caso dos cursinhos populares. Revista Espaço Pedagógico. Passo Fundo, v. 17, n. 1, p. 86-96. Jan./jun. 2010.

THUM, Carmo. Pré-vestibular público e gratuito: o acesso de trabalhadores à universidade pública. 2000. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2000. 185f.

ZAGO, Nadir. Cursos Pré-vestibulares populares: limites e perspectivas. Perspectiva. Florianópolis, v. 26, n. 1, p. 149-174. Jan./jun. 2008.

ZAGO, Nadir. Demanda e acesso ao ensino superior: os cursos pré-vestibulares populares. In: VI Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul (ANPED Sul), 2006, Santa Maria. Anais... Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2006.