“A memória do mal não deve ditar as pautas de nossa vida”

Pesquisador da Unicamp participa de atividade em homenagem às vítimas da tragédia da Kiss, em seu quarto ano

Publicado em: 25/01/2017 às 20:04:39

 

 

 

 

 

Algumas vezes somos confrontados com o impossível, e esse encontro deixa marcas profundas. Um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade definiu a dor da perda como bagagem: “Do lado esquerdo carrego meus mortos. Por isso caminho um pouco de banda”, escreveu em 1954, no seu Fazendeiro do Ar. O coração serve de aconchego para a memória daqueles que fizeram nossa vida.

 

Depois de quatro anos da tragédia que vitimou 242 pessoas em um incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, essa comunidade de 277 mil pessoas no interior do Rio Grande do Sul ainda cumpre sua batalha pela memória. No dia 27 de janeiro, mais uma vez, pretende se reunir para lembrar. Pretende se reunir para não esquecer, para que a memória se transforme em garantia de não mais acontecer.

 

O pesquisador e professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Márcio Seligmann-Silva, estará em Santa Maria neste dia para contribuir com o que tem aprendido sobre o trauma e a memória. Ele vai falar em uma conversa pública sobre "Memória, trauma e reconstrução", que acontece no dia 27 de janeiro, às 19h30m, na Praça Saldanha Marinho. O evento é organizado pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Secretaria de Saúde de Santa Maria, TV OVO, UFSM e Unifra, e tem como objetivo discutir a memória social, a noção de coletividade e a relação com os traumas. Segundo a organização, essa discussão é relevante “para que a tragédia de Santa Maria não caia no esquecimento, para que aprendamos com ela e para que não haja receio de falar sobre ela. É um movimento para enfrentar a dificuldade de lidar com as marcas que o incêndio deixou em todos”.

 

Com uma história familiar marcada por tragédias históricas, como o nazismo e a ditadura civil-militar brasileira, Seligmann-Silva tem dedicado parte de sua carreira a compreender de que forma o testemunho pode contribuir para a construção de uma memória histórica sobre tragédias. Para ele, o trauma, a violência e a dor desafiam o senso comum, o consolo e o perdão. Mas na capacidade de dizer, contar e recontar, lembrar e compartilhar, está a possibilidade de criação de pontes entre o passado e o futuro.

 

A Revista Arco conversou com o professor Seligmann-Silva com exclusividade. Confira:

 

 

De onde surge o interesse sobre o trauma e as tragédias nas suas pesquisas?

 

É interessante que na sua questão você coloca lado a lado trauma e tragédia. No gênero clássico da tragédia, que nos vem da Grécia antiga, trata-se sempre da apresentação de cenas terríveis, mortes violentas, monstruosidades. Pois bem, a história da literatura e da cultura é uma história da tentativa de inscrever cenas violentas, muitas vezes históricas ou inspiradas na realidade. Como alguém que vem dos cursos de História e de Letras sempre convivi com essas questões limite.

 

Ao longo de meus estudos encontrei o conceito psicanalítico de trauma. Lendo Freud vi que para ele os mitos e as tragédias gregas não seriam mais do que vestígios de momentos históricos violentos. Eles foram transmitidos a nós dessa forma. Herdamos nossa história por meio dessas inscrições. A história da arte e da literatura nos leva ao conceito de trauma. Por outro lado, o fato de ter feito meu doutorado em Berlim, cidade de onde minha mãe e meus avós emigraram, fugindo do nazismo, me fez também ficar próximo dos testemunhos de sobreviventes de Auschwitz. Já meu pai foi perseguido pela ditadura civil-militar brasileira. Como você bem vê, seria surpreendente se eu não me interessasse pelo conceito de trauma. Desde 1997, quando retornei ao Brasil, tenho trabalhado com a questão da apresentação e elaboração da violência.

 

 

Qual a importância de se pensar a memória a partir da História, e como é possível compreender a noção de tragédia nas pesquisas históricas?

 

A História como campo de conhecimento aprendeu a aceitar os discursos múltiplos da memória. Isso aconteceu ao longo do século XX, justamente por conta dos terríveis fatos que marcaram aquele século, como os genocídios dos armênios, judeus, ciganos, dos cambojanos, da população ameríndia, do morticínio promovido nas guerras de descolonização na África e na Ásia, assim como por conflitos sociais nos campos e nas cidades da América Latina, etc.

 

Essa violência, ou excesso de violência, na expressão de Primo Levi, gerou uma miríade de respostas: sob a forma de testemunhos orais, escritos, cinematográficos, artísticos, de memoriais, enfim, gerou uma cultura da memória que, unida aos ideários dos direitos humanos - à ideia de crimes contra a humanidade e de sua não-prescrição -, marcaram definitivamente o discurso histórico. Este teve que aceitar os testemunhos (com sua forte carga subjetiva), as imagens (não só fotográficas e de filmes) e todos os traços que podem significar um aceno da memória.

 

A expansão da historiografia em direção à memória rompeu também com um certo positivismo, que caracterizava a ideologia histórica, o regime de verdade histórico. Este [positivismo] teve que aprender, por exemplo, a lidar com o conceito de trauma, que se mostrou muito importante justamente para se pensar a elaboração historiográfica das catástrofes.

 

A historiografia tradicional seguia um decoro segundo o qual o que parece inverossímil não deveria ser parte de seu campo. Mas justamente o inverossímil se tornou mais e mais a regra ao longo do século passado. Estados se transformaram em máquinas de destruição do planeta e de assassinato em massa. Os megaprojetos e megaconstruções destroem a natureza e levam de roldão as populações originárias. O campo de concentração se tornou uma figura política banal, usual. Agora é a vez dos imigrantes e refugiados popular esses campos. Sem falar de nossos presídios no Brasil (e não só), que também se tornaram casas da morte regidas (e abandonadas) pelo Estado. A política instituiu o sacrifício como seu dispositivo central: a tragédia se tornou o prato servido por ela todos os dias. Se a historiografia não se abrisse a isso ela estaria condenada a se desautorizar como discurso digno de um mínimo de crença, e a desaparecer.

 

“Ninguém pode portar a morte 24 horas por dia. A testemunha precisa reconstruir a sua casa, tornar o mundo menos hostil e mais familiar. A narrativa é o tijolo com que ela constrói. Mas sem o cimento da escuta, da acolhida, da abertura ao seu testemunho, a sua narrativa não se conclui, permanece uma ‘máquina quebrada”.

 

 

Em suas pesquisas, você aciona uma noção da psiquiatria freudiana para explicar a ideia de trauma, sugerindo esse como “um evento que resiste à representação”. Qual a importância da construção de narrativas coletivas sobre tragédias, do ponto de vista histórico?

 

Devemos pensar essas construções narrativas de diversos pontos de vista. Elas incidem, antes de mais nada, na própria tentativa de elaboração da catástrofe por parte de quem escreve. Trata-se de uma prática que permite uma reapropriação da vida danificada, um novo empoderamento. A escrita de si não por acaso se tornou onipresente na literatura do final do século XX: ela transbordou dos testemunhos para o vasto campo literário. Inscrever a violência implica retraçar os limites do corpo, da identidade, tatear fronteiras que ficaram expostas pela crise, pelas rupturas engendradas pela violência.

 

Em segundo lugar, essa narrativa procura recriar laços ou construir novas ligações com membros da sociedade, e busca suturar a temporalidade rompida, que dificulta a conexão entre o passado e o tempo após a catástrofe. Assim, a narrativa cria ou refunda grupos, comunidades, identidades. Ela cria e funda temporalidades, eras, períodos. É interessante lembrar que nos anos 1970 ninguém sabia o que era Auschwitz, a não ser os especialistas. Foi a cultura da memória que criou essa inscrição de modo mais universal, delineou essa mensagem do passado, essa dura herança que carregamos também como admoestação contra as repetições históricas – apesar delas acontecerem.

 

Em terceiro lugar, como disse antes, essas narrativas vão ser agora levadas a sério e incorporadas pelo discurso histórico. O historiador abandona seu amor monogâmico pelos documentos de Estado e abraça os testemunhos. A historiografia se complexifica, abre-se para outras áreas, abandona também o pretenso monopólio do discurso da verdade.

 

 

A narrativa de uma tragédia pode ser compreendida a partir dos sobreviventes, ou daqueles que o senhor chama de testemunhas. Qual é o papel da testemunha na construção de narrativas sobre tragédias? Eles podem ser considerados formas de “resistência” coletiva ao esquecimento?

 

A figura da testemunha se tornou central no século XX. Uma das acepções da noção latina de testemunha indica que quem testemunha é o “sobrevivente”. Temos aqui a noção de um relato de quem atravessou ou foi atravessado pela morte. Essa pessoa, que porta a morte dentro de si, vem nos narrar o que aconteceu. Sua narrativa é abalada de várias maneiras: pela excepcionalidade da realidade que ela quer apresentar (sem lastro na linguagem cotidiana ou nas imagens que costumamos ver); pelo luto por aqueles que caíram a seu lado e pelo seu mundo que ruiu; pelo fato do sobrevivente ter que fazer o impossível, que é narrar em nome dos mortos também. Mas ele narra, antes de mais nada, a sua passagem pela morte. É esse contato com a morte que marca sua escrita, a torna diversa, e também transforma a testemunha em uma pessoa única.

 

Mas a sociedade deve entender também que ninguém quer ou pode portar a morte 24 horas por dia. A testemunha justamente precisa reconstruir a sua casa, tornar o mundo menos hostil e mais familiar. A narrativa é o tijolo com que ela constrói a sua casa. Mas sem o cimento da escuta, da acolhida, da abertura ao seu testemunho, a sua narrativa não se conclui, permanece uma “máquina quebrada”.

 

A testemunha normalmente sente uma necessidade quase física de narrar a sua história. Mas esse processo narrativo, que envolve a população como um todo, que deve se abrir para a escuta, não deve descartar o fato de que a narrativa, o testemunho e a cultura da memória não devem criar novamente uma clausura na cena traumática. A testemunha enfrenta uma resistência interna e da parte da sociedade. Mas ela, quando consegue testemunhar, se transforma em portadora de uma verdade. Ela se torna alguém com a coragem de pronunciar aquilo que pode ferir certas pessoas, que prefeririam o silêncio.

 

Uma vez posto em movimento o processo de testemunho, devemos entender também que a memória do mal não deve se tornar exclusiva a ditar as pautas de nossa vida. Pensemos na imagem de uma cidade que passou por alguma catástrofe terrível: ela guardará um ou mais espaços de rememoração, de homenagem aos mortos, de recordação. Separará um dia para lembrar sua tragédia. Mas de modo algum essa cidade se tornará ela mesma um memorial ou monumento, nem todos seus dias serão dias de culto aos mortos. Isto significaria sucumbir ao trauma.

 

Walter Benjamin valorizou muito um quadro de Paul Klee chamado “Angelus Novus” que ele interpretou como sendo um anjo da história. Esse anjo tem no seu peito o desejo de recolher todas as ruínas e destroços que o que chamamos de progresso amontoou sob os seus pés. Pois bem, o mesmo artista Klee tem um outro quadro chamado “Vergesslicher Engel” (Anjo esquecido), feito em 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial. Temos que saber fazer conviver em certa harmonia esses dois anjos, do tempo e da memória.

 

 

Obras de Paul Klee - “Angelus Novus”, de 1920 (esquerda), e “Vergesslicher Engel”, de 1939.

 

 

O testemunho não surge apenas dos sobreviventes, mas da comunidade que vivenciou o evento trágico. As memórias privadas, das famílias e dos moradores da cidade, podem contribuir para a construção de uma memória social sobre a tragédia? De que forma é possível materializar essa memória?

 

Sem dúvida, ao colocar o testemunho em processo, ou seja, ao fazer com que os sobreviventes, os familiares, amigos, enfim, a comunidade testemunhe, constrói-se a memória social sobre a tragédia - além dela, também. Uma ponte vai sendo construída entre o antes e o agora. O que não tem sentido e desafia a razão e os sentimentos gera revolta e um luto melancólico, sem consolo. Ao entrar no processo testemunhal adquire novas formas.

 

Essa memória se materializa em depoimentos orais - em espaços privados e públicos -, em livros, em documentários, em filmes, em memoriais. Mas seria fundamental que esse processo fosse acompanhado também por processos jurídicos sérios, capazes de restituir minimamente a ideia de justiça. Processos que fossem capazes de auxiliar na reconstrução da “moradia” depois da sua ruptura abrupta e inexplicável. Voltando ao tema da tragédia na Grécia antiga, é interessante que esse gênero tem uma forma muito parecida a de um tribunal. É como se as tragédias encenassem a passagem da justiça antiga, feita com as próprias mãos, para a justiça do tribunal.

 

No caso da boate República Cromañón, em Buenos Aires, a justiça demorou, mas realizou seu trabalho, ainda que não se deva esperar do testemunho ou da justiça qualquer tipo de catarses final. Esses processos traumáticos normalmente se estendem por toda a vida. Estamos diante de fatos que desafiam o senso comum, o consolo e o perdão. Não existe reparação possível.

 

“Se a sociedade sucumbe a esses discursos que recusam e desautorizam a memória, ela não viverá em paz”.

 

Outra questão relevante, quando pensamos na História, é a da atuação do poder público na construção da memória – ou, no seu inverso, do reforço do esquecimento. Qual é o papel do Estado na construção de memórias? É possível pensar que, neste caso, ele atua como um “filtro” da memória social?

 

Essa questão é importante também. Toda sociedade pós-traumática é uma sociedade marcada pelos conflitos e embates em torno da memória. A resistência, como disse, vêm já do próprio sobrevivente e dos que o cercam, que resistem a entrar em contato com sua cripta interna. A sociedade muitas vezes nega a importância, se não dos fatos catastróficos, da sua memória. Cria-se o discurso segundo o qual devemos olhar para frente e deixar o passado para trás, em paz. Mas a verdade é que se a sociedade sucumbe a esses discursos que recusam e desautorizam a memória, ela não viverá em paz.

 

Por detrás desses discursos convivem os mais variados motivos. Muitas vezes a lembrança do mal fere os interesses de certas camadas da sociedade, ou de grupos, que preferem esquecer o “acidente”. Outras vezes, trata-se de um mecanismo de defesa, de recusa da memória pela dificuldade em enfrentá-la. Nesses casos, uma prática do testemunho pode ajudar a romper a barreira do silêncio e criar um espaço para o testemunho.

 

Muitas vezes surgem memoriais espontâneos na cidade, sem intervenção do Estado, como foi em parte o que aconteceu na boate República Cromañón. Os agentes do Estado também temem por sua potencial culpa nas catástrofes e muitas vezes acabam agindo como “memoricidas”. Memoriais e marcas da memória são construídos como fruto de lutas em seu favor, contra o apagamento e o simples esquecimento. Não podemos esquecer que os rituais de recordação dos mortos formam o núcleo antropológico de toda relação das sociedades com o seu passado. Cercear esses rituais e a construção de espaços de memória é ir contra uma inclinação das mais profundas do ser humano.

 

Alimentamos nossas vidas também dessa intensa relação com os nossos que se foram. Nossa identidade é forjada nessa lembrança. Nossa sociedade atual, no entanto, tende a apagar esses espaços de memória, a banir a morte e os mortos. Trata-se da outra face da moeda da violência que estampa o Estado como empresa assassina, regida pelos lucros fáceis e pelo poder como violência. Mas isso não impede que algumas vezes surjam iniciativas estatais para promover a memória e a inscrição das tragédias. Isso aconteceu, por exemplo, no Uruguai, na Argentina e no Chile, com relação às suas ditaduras - e no Brasil, em uma escala muito menor. Mas nesses casos, também as marcas da memória foram criadas como fruto das lutas daqueles que acreditam na sua importância e necessidade.

 

 

Existe uma grande discussão, no caso de Santa Maria, sobre o espaço da boate ser transformado em um memorial das vítimas. Do ponto de vista histórico, como é possível compreender a presença de elementos arquitetônicos ou espaços urbanos como recursos de memória? E na relação com a tragédia, qual é a importância de um ato como esse?

 

Não existe uma resposta unívoca para essa pergunta. Eu teria que estar em Santa Maria e ter seguido os debates de perto para poder opinar diretamente sobre esse caso específico. Mas o importante é que o debate ocorra, que propostas sejam feitas, que surjam iniciativas, por exemplo, de se fazer um concurso, com ideias e propostas para se fazer esse memorial.

 

Em Buenos Aires foi uma iniciativa civil que deu origem ao Parque de la Memória. O Estado entrou depois, para apoiar financeiramente. Mas é essencial, em todos esses casos, que a população participe intensamente dos debates e da configuração do local de recordação. Não se trata mais dos monumentos na sua tradição de comemoração dos grandes “heróis” e feitos da nação, mas de uma outra tradição, dos memoriais de catástrofes, de crimes, de genocídios, que surgem justamente no século XX. Se antes o Estado era praticamente autônomo nesse processo, agora é a sociedade que intervém diretamente na inciativa, e em todo o processo de planejamento do local de memória.

 


Muita discussão, muito debate, e acaloradas brigas se dão nesse processo, formam-se e desfazem-se comissões, mas tudo isso é parte do trabalho de elaboração de um passado terrível. Essa nova tradição de marcar os locais de memória do mal deriva de uma antiga prática de se demarcar os locais de memória e de recordação, mas agora a ênfase se dá nas perdas, nas tragédias. Essa memória do mal ajuda a se construir uma sociedade mais ética, mais atenta aos sofrimentos dos outros, à necessidade de se limitar a violência do Estado e do capital. Assim, a violência e esse tipo de desastre provocado por um enorme descaso para com a vida, podem eventualmente deixar de ser tratados como algo “normal”.

 

 

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Além da conversa pública, o professor Márcio Seligmann-Silva participa do colóquio “Ações e desafios em torno da tragédia da Boate Kiss”, promovido pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Secretaria de Saúde de Santa Maria, TV OVO e a UFSM. O evento acontece na manhã do dia 27 de janeiro, no Auditório da SUCV (Rua Venâncio Aires, 1934 - Centro), a partir das 9 horas da manhã. Também são convidados para o colóquio profissionais e pesquisadores de diversas áreas, como Saúde, Direito, Psicologia, Jornalismo e Antropologia. As inscrições são limitadas, e podem ser feitas no link.

 

 

 

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Reportagem: Laura Storch
Fotografia: acervo do pesquisador.
Obras de arte: reprodução.