Bioética na Medicina

Médico espanhol discute comportamento moral de médicos em relação a pacientes terminais

Publicado em: 10/04/2017 às 17:05:45

 

 

 

 

No dia a dia de hospitais ocorrem situações que vão além do que pode orientar qualquer manual ou código de ética médica. Afinal, quando o assunto permeia a vida e a morte, recomendações podem ser relativas e inadequadas para aplicar em todos os casos.

 

A Bioética busca resolver os conflitos éticos e morais das práticas no campo das Ciências da Vida e da Saúde. Na Medicina, o termo remete ao estudo do comportamento moral dos médicos enquanto profissionais, suas decisões e a relação com os pacientes. Casos como a discordância entre paciente e médico sobre o uso de alguma medicação ou se uma pessoa tem o direito de romper com tratamento são questões rotineiras e práticas que a Bioética procura discutir. 

"Muitas decisões e dúvidas são realmente éticas, não clínicas, e os cidadãos devem também as conhecer".

 

 

Benjamín Herreros é professor de Bioética e Humanidades Médicas da Universidade Europeia (UE), na Espanha, e diretor do Instituto de Ética Clínica Francisco Vallés - que procura discutir questões sobre a ética médica e investigar os principais campos da ética clínica, além de instruir profissionais da saúde, assessorar os conflitos éticos e realizar publicações de interesse no campo da ética clínica. Herreros esteve em março em Santa Maria para o Ciclo de Palestras sobre Bioética Clínica e Cuidados em Final de Vida, realizado pelo Centro de Ciências da Saúde e o Hospital Universitário de Santa Maria. A Arco conversou com o professor sobre a Bioética, como ela afeta a vida das pessoas, e por que discutir sobre isso é tão necessário para a comunidade médica e para os cidadãos.

 

Benjamín Herreros esteve em um evento na UFSM em maio

 

O Instituto Ética Clínica tem professores que trabalham em diversas instituições ao redor do mundo. Além de realizar eventos como o da Universidade Federal de Santa Maria, para você, quais são os benefícios destas redes de colaboração entre as universidades?

 

Em primeiro lugar, conhecer como se trabalha a Bioética em outros lugares do mundo. Embora os temas sejam os mesmos, como os problemas do final da vida, os aspectos éticos da pesquisa ou os problemas da relação clínica, o enfoque é muito diferente segundo a cultura e o sistema sanitário. No Brasil, por exemplo, detectamos problemas com o manejo dos cuidados paliativos [aqueles relacionados à melhoria da qualidade de vida dos pacientes portadores de doenças sem cura, por exemplo], que não temos na Europa. Em relação ao ambiente clínico, vemos que na Europa [esse cuidado] é por vezes mais distante. Cada país, segundo sua cultura, tem nuances muito diferentes nos problemas. Outra questão importante é conhecer os professores e profissionais que trabalham em Bioética, porque nos dá a oportunidade de pensar em projetos docentes ou de pesquisa comuns para o futuro, tal como estamos tentando fazer com a professora Maria Teresa Campos, da UFSM.

 

Por que o estudo da Bioética é necessário e como isso afeta a vida dos cidadãos?

 

Uma das questões que queríamos deixar clara no curso é que a Bioética surge para dar resposta a problemas concretos, e que tem que ser prática, não teórica. Os conflitos de valor nas decisões clínicas são muito habituais. Muitas decisões e dúvidas são realmente éticas, não clínicas, e os cidadãos devem também conhecê-las. Por exemplo, o que se deve fazer quando os profissionais e o paciente não estão de acordo? A quem se deve informar? Ao enfermo ou à família? Até onde pode decidir um paciente sobre sua vida? E sobre sua forma de morrer? Existem muitas questões éticas que afetam de forma muito séria a vida dos cidadãos.

 

Observei que você tem interesse pelo estudo da Bioética no cinema. Como essa forma de arte pode influenciar essas discussões?

 

O cinema é o meio de comunicação de mais impacto no mundo, e muitas vezes reflete questões bioéticas. A Medicina e os conflitos morais são temas muito importantes para todos, e o cinema não deixa de refletir o que as pessoas se interessam. Existem muitos filmes sobre doentes terminais, sobre como se vive a doença, sobre pesquisas que são inaceitáveis, etc. E podemos utilizar o cinema para colocar situações aos estudantes, o que permite uma reflexão mais direta sobre os temas, como se se tratasse de um caso real.

 

 

Como decidir entre prolongar ou não a vida de um paciente em sofrimento?

 

Responder a essa pergunta não é simples, porque cada caso tem suas sutilezas. Porém, uma coisa sim está clara: na medida do possível, deve ser o paciente quem deve decidir como quer morrer. E se pensamos no que nós queríamos, creio que quase ninguém queira morrer sofrendo. Sair da vida com sofrimento depois de uma vida feliz é uma desgraça.

 

Por fim, gostaria de saber se já você tinha vindo ao Brasil e se existem estudos brasileiros em Bioética que tem interesse?

 

É a primeira vez que venho. Somente conheci Santa Maria e Porto Alegre. Gostei muito de conhecer o país e, sobretudo, as pessoas daqui. Os professores, profissionais, alunos,... foi um curso muito mais enriquecedor do que pensávamos. Em relação aos estudos de Bioética no Brasil, existem universidades que tem muita tradição em bioética. A Universidade Federal de Santa Maria tem profissionais muito qualificados e o Comitê de Ética é muito profissional. Espero que o trabalho que estão fazendo pouco a pouco seja conhecido pelos profissionais da saúde. Profissionais bem formados em Bioética supõem um grande benefício para a cidadania, porque, como disse, os problemas éticos na medicina são muito importantes.

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Repórter: Tanise Arruda e Pablo Furlanetto
Ilustrações: Nicolle Sartor
Fotografia: Instituto Francisco Vallés | Divulgação