Por Ronald Bossemeyer*

Janeiro de 1954. No exame vestibular para a admissão à Faculdade de Medicina de Porto Alegre acontece algo inusitado: apesar do edital de convocação explicitar claramente que os primeiros 100 classificados seriam os alunos do curso médico daquele ano, são relacionados 150 aprovados. Inequivocamente, os 100 primeiros matricularam-se naquela instituição e os demais, os excedentes (assim chamados desde logo), tornaram-se os alunos que constituiriam o que viria ser a primeira turma médica da recém-fundada Faculdade de Medicina de Santa Maria, por muitos, com propriedade, chamada “a Faculdade de Medicina do Dr. Mariano”.

 


O curso transcorria lisamente, apesar dos pessimistas. Mariano, arguto e atilado, fez bom uso de sua inquestionável influência e brindou a seus alunos o melhor ensino nas chamadas disciplinas básicas enquanto preparava alguns médicos da cidade para o ensino prático, enviando um bom contingente destes para fora do estado e trazendo “a nata” da capital e do centro do país assim como do estrangeiro, para ensinar à “sua” primeira turma. Necessário tornou-se, então, dispor de um bom teatro de operações: um hospital de ensino.

 

O “Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo”, já tradicional e fundado pelo próprio Astrogildo em 1903, servia à cidade há cerca de meio século mas apresentava nítidas limitações. Pois Mariano não exitou em aprimorá-lo e atualizá-lo, conferindo-lhe a feição de um eficiente hospital de ensino. 

 

Para tal, mais do que equipá-lo, arregimentou seu Corpo Clínico e, mais ainda, motivou os responsáveis pelas distintas enfermarias e ambulatórios da entidade a participar ativamente do processo de ensino, fazendo-o pessoalmente ou oferecendo seu espaço para que em seus leitos os alunos pudessem praticar.

 


Foram inúmeras as enfermarias do Hospital de Caridade que colaboraram para o funcionamento da novel Faculdade. Deveriam ser citadas as de cirurgia de mulheres (como a do Dr. Amaury Lenz e a do Dr. Cecil Agne), as de clínica médica de mulheres (como a da Dra. Diná Schmidt e a do Dr. Canabarro), a Maternidade (sob a guarda zelosa do Dr. Celso Teixeira) e tantas outras enfermarias, todas sob a direção de diligentes médicos como o Dr. Miguel Meireles (na pediatria), para exemplificar com alguém tão especial como o Mestre Meireles.Nossa faculdade foi a primeira escola de medicina brasileira concebida e estruturada no estilo americano: o sistema departamental. Vale dizer, constituída por unidades docentes que grupavam várias disciplinas afins, os departamentos, assim potencializando os ensinamentos e aproveitando docentes cujo conhecimento técnico poderia enriquecer um maior número de alunos e, assim, beneficiar os pacientes enfocando seu estado de saúde de forma mais eficiente e realista.

 


O pioneirismo não se restringia ao exposto; a Faculdade de Medicina de Santa Maria foi, também, o primeiro curso médico a dedicar os dois últimos semestres ao estágio obrigatório nas quatro áreas do conhecimento médico como um todo: clínica médica, clínica cirúrgica, tocoginecologia e pediatria. E isto tudo (no que tangia ao ensino prático) inteiramente sediado no valoroso Hospital de Caridade. O “Caridade” (como carinhosamente muitos de nós nos referimos ao “nosso” hospital), agora já centenário, segue seu caminho rumo ao futuro. E verdade seja dita, sua estrutura atual é bem diferente da existente nos tempos da nossa “primeira turma”...!

 

*Ronald Bossemeyer fez parte da 1ª turma de Medicina da UFSM e atualmente é Diretor-Técnico do Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo
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