Marcas do tempo em forma de arte

Memória e poesia são mescladas em tema de Dissertação em Artes Visuais

Publicado em 06/11/2017 às 09:57

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“As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”*. A arte do passar do tempo. É disso que trata a dissertação de mestrado Memórias de infância: pesquisa poética em artes visuais, na qual a autora e artista visual Aline Arend materializou suas lembranças pueris em um processo artístico delicado. A tese foi defendida no ano passado, mas como a autora diz “sempre estará presente e latente no meu eu, na minha identidade, escondida, esperando para ser lembrada”.

 

Livro objeto da artista em exposição

O trabalho teve ênfase no método de fazer a arte. Seu diferencial se encontra no modo como foi desenvolvido: a chamada “construção poética”. O processo artístico de modo geral é bastante subjetivo. Ele leva em consideração reflexões de caráter pessoal. No caso da “construção poética”, esse processo se acentua de tal forma que é quase incógnito para quem não tem acesso a essas memórias. É uma pesquisa autobiográfica nas próprias memórias, fotografias e objetos guardados pela artista em que o processo vai se desenrolando à medida que vai acontecendo. “Não é algo que possa ser explicado, nem deve ser. O artista se depara com suas inquietações, com a dúvida, com o acerto, com o erro e com o discurso que rodeia todo o processo”, afirma Aline.

 

 

A artista criou dez trabalhos a partir da pesquisa. Eles foram divididos em livro de artista e livros objeto. Esses conceitos contêm um leque de significados. Os cadernos de Leonardo da Vinci, do século 15, são considerados livros de artista. Em resumo, o livro de artista é um objeto de arte que fala por si mesmo. Ele pode transcender inclusive o próprio conceito de “livro”, sem a necessidade de ser lido para ser compreendido. A leitura ocorre na estrutura geral do livro, e não pelo seu texto. “O livro foi algo fundamental para minha poética, pois se relaciona diretamente com as questões que trabalho: memória, recordações, o tempo, o desgaste… Acredito que o livro me escolheu e não o contrário”, esclarece a artista.

 

 

Os livros objeto são peças únicas, pois se mantêm à distância da produção massiva de obras literárias. Ele transcende os limites tradicionais dos livros comuns, baseados principalmente no texto. Este elemento pode ser visto, antes de tudo, como uma obra artística visual. Esse tipo de obra rompe com o formato mais conhecido do livro e busca sua identidade na produção imagética imanente às Artes Plásticas.

 

 

A técnica usada que mais identifica o trabalho como um todo, segundo a artista, é a gravura. A partir da ideia de “memória da gravura” podemos pensar a poética intrínseca à pesquisa. Nas palavras da artista: “a gravura, seja ela em metal, madeira ou pedra, tem essa interessante questão relacionada à memória. Se risca, fere, marca, arranha a superfície do suporte. Ao fazer isso, não apenas marcamos o material, mas também inserimos nele um momento no tempo, uma parte da memória de quem o fez e que ficará registrado, ferido, marcado no material e na memória. Nossa memória está repleta de pequenos momentos, ela se constitui disso. Pensar essas relações, que se pode fazer a partir da memória, me totaliza em relação à arte e proporciona novos pensamentos, novos olhares, novas experiências para pensar e criar”.

*poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reportagem: Vitor Rodrigues