Lisboa

Por Nathani Lencina*

Publicado em 08/11/2017 às 14:56

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A minha Lisboa era tão linda. Na chuva ou no “bom tempo”.

Era linda no tempo dela. Era ontem e agora.

Linda até quando me deixou ir.

Quando me deixou ir sem que eu nada pudesse fazer para parar.

Ela me disse para ser leve e andar. Para ficar calma.

Move-te. Porque o movimento é o que te faz. Me disse.

Lisboa era esse lugar meu. Onde eu não precisava pedir licença para ser.

Que eu não precisava pensar se era mesmo para estar lá.

Eu simplesmente estava.

Lisboa era esse lugar em que meus pés encontravam com prazer as ruas.

Era a cintilância do meu sonho que virou mundo.

E eu sentia. Mesmo que Lisboa doesse em mim. Eu queria sentir mais.

E ela, em mim, criava. Lançava uma magia.

Na água, no ar, nos caminhos todos.

Meu corpo seguia seu ritmo, deixando enfeitiçar de propósito.

Lisboa era esse retrato. Um grande composto de coisas vivas.

Como se feita na arte. Bela e estranha.

Eu só queria andar e olhar.

Queria olhar o retrato. E reparar.

Reparei no meu próprio pertencimento.

Encarei tantas vezes meu próprio aprendizado.

Vi a mim mesma no grande retrato de Lisboa.

E a verdade é que vida tem um só nome.

Lisboa era feita para o corpo mover-se, para experimentar, para ensimesmar-se.

Em si mesmo, mar. E naquilo tudo, amar.

Por toda a extensão daquele retrato.

Vi a mim mesma no retrato de Lisboa como a última vez.

Ela estava como da primeira vez.

A Praça do Comércio, o Chiado, o Bairro Alto, os miradouros, os largos, as feiras, as estações, os bondes, os parques, os azulejos, as delícias escondidas. Belém.

As misturas dela.

Não pensei sobre estar indo embora.

Reinventei meu movimento. Aceitei minha criação e a dor.

A vida tem um nome só.

E é o nome que eu dei.

Pensei no meu funcionamento de pessoa.

Não queria resumir o tempo dos nomes.

Não queria que Lisboa me esquecesse.

O retrato de Lisboa é infinito. E seu coração é grande.

Cabem tantos nomes nele.

Um coração tenro que me recebeu.

 

*Participou de um intercâmbio em Portugal durante sua graduação em Ciências Sociais pela UFSM

 

Pintura usada ao fundo: Antonio Junior, acadêmico de Artes Visuais da UFSM