Traços de memória e identidade

Santa Maria é referência em Art Decó, estilo artístico que surgiu em meados do século XX

Publicado em 06/07/2018 às 13:22

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Quem passeia pela Avenida Rio Branco de Santa Maria e observa a quantidade de prédios históricos, talvez não imagine que – mundialmente – a cidade tem o segundo maior acervo em via contínua de Art Decó. O movimento artístico que surgiu na Europa, na década de 1920, chegou de forma tardia na cidade, mas deixou profundas marcas na arquitetura local.

 

Foi a partir de 1940, período em que a cidade vivia o auge da ferrovia, que o primeiro edifício com os traços predominantemente simétricos, formas racionais e funcionais, foi erguido na cidade: o Edifício Cauduro – que abrigou o Hotel Jantzen. A paisagem da Avenida Rio Branco, que ligava o eixo comercial da cidade à Estação Férrea de Santa Maria, foi sendo remodelada aos poucos. Hoje, a avenida conta com o segundo maior número de exemplares do estilo em linha reta, ficando atrás somente da famosa rua Ocean Drive, em Miami.

 

 

Com o intuito de identificar as características, elementos, códigos formais e compositivos da arquitetura Art Decó executada na cidade de Santa Maria, a arquiteta Márcia Barroso defendeu sua dissertação de Mestrado, em 2013. O trabalho intitulado “Estudo sobre o Art Decó em Santa Maria/RS: o caso da Avenida Rio Branco e seu patrimônio edificado”, faz uma apresentação da origem da estética e seu desenvolvimento. Vivia-se, na época, o que a arquiteta chama de atmosfera déco. No cenário latino-americano, Cuba e Porto Rico se destacam com amplo acervo histórico. No Brasil, municípios planejados como Goiânia e Rio de Janeiro são referência no estilo. Já em território gaúcho, as cidades de Pelotas e Porto Alegre (principalmente, na Avenida Farrapos) também têm um acervo de grande relevância.

 

 

Santa Maria não ficava para trás: “O mais interessante é perceber como Santa Maria queria estar de acordo com o que estava acontecendo no mundo naquela época. A cidade que se localizava em um eixo importante de comércio começou a chamar a atenção, tinha o desejo de se modernizar”, pontua Márcia. Foi a partir de uma rede de apoio ligada ao associativismo da Viação Férrea que o tecido urbano e as construções do núcleo inicial da cidade foram se delineando. A que antes era chamada de Avenida do Progresso, hoje é Avenida Rio Branco e compõe o Centro Histórico de Santa Maria.

 

A partir do estudo foram constatadas a presença de 16 exemplares arquitetônicos com traços significativos do estilo compondo a espacialidade da principal avenida da cidade. Destes, foram escolhidos quatro prédios para serem objeto de uma análise completa de todos os seus aspectos arquitetônicos, espaciais e de materialidade.  

 

 

 

O conjunto gráfico do trabalho é composto por plantas baixas, fachadas e seções verticais, disponível nos arquivos públicos do município. Na pesquisa, são apontados todos os aspectos da configuração material e estilística desta arquitetura.

 

De acordo com a arquiteta, a análise foi motivada pela necessidade de valorizar e preservar o patrimônio cultural e histórico da cidade; e, para além disso, despertar o sentimento de memória e identidade na população.

 

Situação atual do acervo

 

Acervo Art Decó na Avenida Rio Branco. Créditos: Márcia Barroso

Para além da Avenida Rio Branco, a cidade conta com uma variedade de prédios históricos construídos na época, no entanto, apenas 22 foram tombados pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Entregues à ação do tempo, grande parte se encontra com as estruturas externas e internas danificadas. De acordo com Márcia Barroso, a restauração do patrimônio Art Decó é percebida lentamente, em prédios que são, em sua maioria, de propriedade privada. Alguns ainda apresentam fachada conservada, mas poluída por anúncios e letreiros de lojas. Segundo ela, isso se deve “à falta de investimento público e de um sentimento de identificação por parte da sociedade”.

 

Edifício Art Decó na Avenida Rio Branco, inspirado na figura de um transatlântico.

Mudanças no Plano Diretor

Todas as cidades com mais de 20 mil habitantes – como é o caso de Santa Maria – devem elaborar um Plano Diretor. Previsto na Lei 10.257/01, conhecida como Estatuto da Cidade, trata-se de documento-base de orientação política para o desenvolvimento dos municípios. Para que ofereça qualidade de vida para todos, o ideal é que uma cidade cresça de maneira equilibrada, com definições prévias acerca das prioridades do município e das destinações de uso de seu território.

 

O atual Plano Diretor de Santa Maria é datado de 2005. Em breve, no entanto, podem entrar em vigor as novas emendas, discutidas ao longo dos últimos três anos, após uma série de audiências e reuniões públicas com representantes de 40 entidades. Dentre as 33 propostas discutidas na Câmara dos Vereadores, uma em especial, que diz respeito às regras de construção dos edifícios, chama a atenção da comunidade que se divide no manifesto contrário ou favorável à aprovação.

 

A proposta de mudança deve impactar consideravelmente o visual da Avenida Rio Branco, conforme prevê o arquiteto Daniel Pereyron, vice-presidente do Instituto de Planejamento de Santa Maria (Iplan) – autarquia municipal responsável pelo planejamento urbano. Isso porque a regulação da altura dos prédios é feita pela cumeeira do prédio da Sociedade União dos Caixeiros Viajantes (SUCV), onde funcionam as secretarias de Educação e Cultura. A fim de não tirar a importância dos prédios históricos existentes ao redor, as novas edificações não podem ultrapassar essa altura. Porém, a área central da cidade apresenta irregularidade no relevo e o regramento causa dúvidas para o Sindicato dos Construtores Civis de Santa Maria.  (Sinduscom-SM). “O Sinduscom propôs que fosse retirada a regulação pela cumeeira e permanecesse só uma das colunas [da lei] que fala da altura máxima. Isso vai permitir um pouco mais da altura aos novos prédios”, explica o arquiteto.

 

Segundo Pereyron, as discussões em torno do tema, esbarram em visões distintas do visual  da preservação histórica, de criação de identidade: “Existem cidades onde há um entendimento de que os prédios que compõem o centro histórico devem possuir todos a mesma altura. Há também lugares onde os prédios históricos são mesclados aos prédios modernos e altos, como é o caso da cidade Buenos Aires.”

 

Prédio da SUCV, balizador de altura na construção de prédios na Zona Histórica.

No entendimento de Francisco Queruz, presidente do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural de Santa Maria (COMPHIC-SM), “a forma como o texto está formulado desprotege a zona 2 – zona Histórica de Santa Maria” uma vez que a maior parte dos prédios não é tombado. Francisco acredita, que a novas modificações abrem brechas para “o centro inteiro ir abaixo, devido à especulação imobiliária”.

 

Já a arquiteta Márcia Barroso que também companha a discussão, explica que “os planos diretores podem definir áreas que sejam de interesse histórico onde há prioridade de preservação”. Segundo ela, o potencial histórico e cultural de Santa Maria deveriam ser aproveitados tanto pela gestão do município quanto pela iniciativa privada, a fim de gerar ainda mais lucro. “À exemplo do que já vem sendo feito em outras cidades brasileiras, a conservação do patrimônio Art Decó pode impulsionar o turismo local e a geração de renda”, defende.

 

 

Reportagem: Tainara Liesenfeld

Gráfico: Pollyana Santoro

Fotografia: Rafael Happke

Mapas: Márcia Barroso