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Casa do Estudante Indígena da UFSM preserva a cultura dos povos originários

Publicado em 28/12/2018 às 12:59

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Fruto de uma luta de anos: assim o cacique kaingang Natanael Claudino, da aldeia de Santa Maria, define a Casa do Estudante Indígena Augusto Ópẽ da Silva, inaugurada na UFSM no dia 14 de dezembro. Com 96 vagas disponíveis e 66 já ocupadas por acadêmicos, o espaço é resultado das políticas públicas afirmativas que, desde 2008, buscam garantir o acesso e a permanência de alunos indígenas na Universidade.

 

Além de ser um direito, a Casa representa um espaço de preservação da cultura dos povos originários dentro da Universidade. “Aqui a gente pode mostrar um pouco da cultura do nosso povo, dos guaranis, dos kaingang, e ficar à vontade, falando nossa língua”, comenta o estudante de Farmácia William Gama, oriundo da comunidade de Xakriabá, em Minas Gerais. “Sair da aldeia e se inserir em um contexto e em uma cultura totalmente diferentes é um pouco difícil, mas estou me adaptando”, relata o aluno que vive na Casa do Estudante Indígena desde a liberação do espaço para moradia, no início de 2018.

estudante indígena em frente à casa do estudante indígena da ufsm

William usando, na cabeça, o cocar, que faz parte do cotidiano e de momentos de apresentação; no pescoço, o colar de proteção; e, nas mãos, o maracá, instrumento que produz som ao ser agitado.

Bruno Júnior Ferreira, kaingang da Reserva Indígena de Guarita, localizada no noroeste do Rio Grande do Sul, faz Medicina na UFSM desde 2016 e também vive na Casa. “É bom morar aqui porque tem pessoas com a mesma cultura que a minha, com pontos de vista iguais. É mais fácil de conviver”, relata o estudante.

A Casa do Estudante Indígena da UFSM recebeu o nome do líder kaingang responsável pela idealização do espaço junto à Instituição. Augusto Ópẽ da Silva, falecido em 2014, nasceu na comunidade de Iraí, no norte do Rio Grande do Sul. Puxou a frente da luta pelas causas indígenas em diversos lugares do estado e do país, especialmente em Santa Maria – onde já teve o nome atribuído à escola da comunidade indígena local. “Nós temos que homenagear nossos guerreiros enquanto eles estão no meio de nós. Quando eles partirem, eles partem felizes. Partem com o dever cumprido”, destaca o cacique Natanael.

 

Na inauguração da Casa estava Jorge Canã Garcia, que aos 98 anos de idade passa ensinamentos da cultura indígena aos professores da escola da Reserva de Nonoai, onde vive desde que nasceu. Na infância, aprendeu as histórias e foi instruído pelos mais velhos. Hoje, é ele quem ocupa esse papel. Por isso, defende que as crianças da aldeia devem aprender a falar e a escrever na língua kaingang e em português, ao mesmo tempo. “Se não aprender a falar ‘índio’, a cultura é perdida”, garante o líder.

 

Aos que já estão na Universidade, Jorge entende que é necessário apoio para que não desistam dos estudos. “Quem sabe, no futuro, algum deles faça até um livro em kaingang para não perder a cultura”, almeja Jorge.

 

O cacique Natanael comenta que aqueles que estudam na UFSM e moram na Casa do Estudante Indígena, no tempo livre entre aulas e tarefas, se reúnem para preservar a língua, os remédios tradicionais, as comidas típicas, os cantos e os rituais. “Eles têm essa liberdade, porque o espaço é nosso”, afirma Natanael. Também vivem na Casa filhos dos estudantes.

 

A kaingang e representante da Fundação Nacional do Índio (Funai), Maria Inês de Freitas, vê a inauguração da casa como um momento importante de demarcação de território e de visibilidade da causa e dos estudantes indígenas. “A casa é resultado de uma luta, é conquista”, destaca Maria Inês, que complementa: “Diante do contexto político desfavorável à questão indígena, a gente precisa se unir cada vez mais com a universidade, com a sociedade civil e com as lideranças indígenas para estabelecer um diálogo e construir alternativas”.

 

Nós, kaingangs, somos um povo guerreiro. Vamos continuar lutando pelo nosso espaço, não só na UFSM, como em outras universidades”, afirma o cacique Natanael.

 

Esta matéria foi editada em 7 de janeiro de 2019 às 9:23

Reportagem: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

Edição: Mirian Quadros

Fotografia: Rafael Happke