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21 anos. Na certidão, Jenifer. No mundo artístico, Lenora. Se você já ouviu esse nome circular pelos corredores do CAL, deve estar por dentro do assunto: Lenora Consales, estudante do sétimo semestre do curso de Artes Cênicas foi a diretora e dramaturga do monólogo Sob a Pele, que subiu ao palco do Theatro Treze de Maio no dia 3 do último mês e que ganhou grande repercussão em meio aos debates sobre negritude em Santa Maria.

 

Negra, mulher, moradora da Casa do Estudante Universitário II (CEU II), Lenora veio da cidade de São Borja, localizada na fronteira com a Argentina, para Santa Maria, com a intenção de iniciar seus estudos em Artes Cênicas. No 6º semestre teve contato com a cadeira Técnicas de Representação 5 e 6, juntamente com o Laboratório de Orientação 5 e 6, em que deveria entregar, para a conclusão dela, um monólogo.  Em um ano criou, ensaiou e concluiu o espetáculo Sob a Pele.

 

Sua peça, que possui apoio da Lei de Incentivo a Cultura (LIC) e tem a temática negra como ponto principal, trouxe na forma de monólogo discussões e debates sobre questões raciais, de preconceito, embranquecimento e de como o racismo é visto na infância. “Para criar eu entrevistei outras mulheres negras, perguntei sobre a vida, sobre o cabelo, o preconceito, a infância, li algumas obras e introduzi no espetáculo as minhas histórias, as histórias das mulheres que eu entrevistei e histórias que eu ouvi na minha vida” conta a artista sobre o processo de criação. Não é uma personagem, mas sim sua própria identidade. Embora no palco sua atuação pareça ser puramente profissional e produto dos ensaios de quase um ano, no processo de criação da peça, ela retrata no monólogo nada mais que episódios de sua própria vida.

 

Ao usar um espaço elitizado, para tratar de um assunto que atinge em sua maioria, minorias de poder, Lenora ressalta qual é a importância de ter essa oportunidade dentro do Theatro para falar sobre o racismo: “a importância é a visibilidade, porque o Treze é muito colocado num patamar onde só certas pessoas podem ir. Então pessoas negras, da periferia se sentem excluídas desse local. Colocar esse trabalho como o Sob a Pele, falando de temática negra, falando de racismo, embranquecimento, falando nesse lugar que a gente é excluído, apresentar nesse lugar, é, a visibilidade com certeza” conta ela.

 

No CAL, se pode notar que intervenções artísticas acontecem constantemente, com a intenção de fazer refletir, pensar e questionar sobre as mais variadas situações cotidianas. Nos corredores de seus prédios, bem como espalhados pela Universidade, muitos trabalhos construídos por estudantes e também professores do Centro tem a intenção de colocar um ponto de interrogação à comunidade acadêmica referente a temas como política, educação, opressões e afins. Foi a partir desse paradigma, o “fazer pensar”, que a atriz fundou seu trabalho. “Eu não vejo o papel da arte muito longe de debater a sociedade, a arte como forma de questionar os padrões, questionar as estruturas, as pessoas. De cutucar, de dizer ‘olha, pensa!’” defende Lenora.

 

A visibilidade que o monólogo recebeu, gerou discussões nos dias que se sucederam a apresentação no Theatro. O debate sobre racismo se viu presente dentro da Universidade, foi uma importante ferramenta para disseminar o assunto e promover reflexões. Quando questionada sobre o impacto da sua criação sobre a sociedade santa-mariense, a estudante acredita que é mostrar para as pessoas que não são atingidas pelo racismo, pessoas brancas, o quão prejudicial ele é.

 

Texto: Amanda Xavier