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Foto: Claudio Vaz/Agencia RBS

 

 Paredes feitas de alaranjados tijolos a vista. Somente no interior das salas de aula se tinha reboco para cobrir a poluição visual que o cimento em contraste com os tijolos trazia aos olhos. As ruas eram feitas com cascalho. Calçamento era uma realidade ainda inexistente. O primeiro prédio da Casa do Estudante II tomava forma. Mulheres não eram permitidas e as poucas vagas destinadas a elas, quando digo poucas, seis ou sete, se encontravam na Casa do Estudante I, localizada no centro de Santa Maria. O ano era 1974, período em que o Brasil ainda vivia no regime militar, e foi nesse momento que Alphonso Benetti chegou a Universidade Federal de Santa Maria.

 

Vindo de uma localidade chamada Linha Saxônia, no interior da cidade de quarta colônia Faxinal do Soturno, era ainda muito jovem quando chegou. Seus pais eram de família humilde, camponeses com pouco estudo, que usavam da produção na roça para viver.  Alphonso, aluno dedicado, era de longe o rapaz que mais se destacava em sua escola. Entretanto, seu sonho de crescer não dependia somente disso, era necessário  que seus pais tivessem condições em lhe dar apoio para seguir os estudos. E ele sabia que só poderia ir para uma universidade se ela fosse gratuita. Foi aí que o professor encontrou na UFSM o que precisava para ser um artista.

 

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Matriculou-se então no curso de Artes Visuais, que na época chamava-se Desenho e Plástica. A Universidade ainda era jovem, possuía somente 10 anos. Nesse território desconhecido, em que as diferenças de classe, etnia, orientações sexuais e gênero circulavam em comunhão, Alphonso se sentiu acolhido. Por necessidade, foi morar na CEU II. Recebeu então, suas primeiras retribuições pelo esforço que colocou sobre o sonho de ser artista. As dificuldades financeiras foram sanadas pela solidariedade encontrada dentro da CEU. Num local onde todos se encontravam na mesma situação, nunca se sentiu sozinho.  A partir disso, conheceu um pouco da realidade universitária, bem como suas alegrias e frustrações.

 

Em 1980, logo após se formar, começou a lecionar na Universidade. Teve, pela primeira vez, o prazer de ensinar o que lhe foi ensinado. De enxergar o resultado de tudo o que ele havia vivido para poder estar ali. Iniciou seu trabalho com desenho, posteriormente com cor e atelier de pintura. Pouco tempo depois ajudou na criação do Atelier de Pintura 1336, que até hoje é muito conhecido por sua identidade. Chegou a ter o cargo de diretor de departamento, coordenador do curso por duas vezes e foi, por um tempo, o único professor orientador de pintura do curso.

 

Sua carreira, feita de um trabalho sério e honesto, o fez ser um professor querido e respeitado tanto nos corredores do CAL, como na região. Procurou basear sua arte no melhor horizonte da pintura mundial, para que assim sua pintura fosse o melhor que ele poderia criar. Seu estilo sempre foi reconhecido pela presença da figura humana, a feminina em especial.

 

Hoje, após 37 anos lecionando, Alphonso, ou Alphonsus – seu nome artístico – desfruta de sua aposentaria. No mês de março desse ano concluiu o trabalho que por anos construiu dentro da UFSM. Deixou, no Centro de Artes e Letras, marcas de alguém que nunca se arrependeu das escolhas que fez independente de ter ou não obtido sucesso. Sucesso esse, que na verdade, pode hoje ser percebido em sua fala emocionada, em sua pintura e em sua história. Para ele a arte é uma necessidade interior da pessoa, é uma paixão sustentada pela fé. Quando questionado sobre a importância da UFSM em sua vida, ele afirma “Tudo que eu tenho, eu consegui com ela”. 

 

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