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Foto: Diário de Santa Maria

 

Foi num teste vocacional da escola que Mário Lúcio Bonotto Rodrigues, Máucio como hoje é conhecido, descobriu que seu caminho passaria pelas Artes. Santa-mariense de berço fez o ensino fundamental e médio em escolas estaduais da cidade. Naquela época, meados dos anos 70, ingressar na universidade pública recém tornava-se privilégio da classe média.  Foi a partir desse novo momento da educação brasileira, que Máucio teve a oportunidade de passar pelo arco da Universidade Federal de Santa Maria como um universitário.

 

Em 1978 entrou no curso de Engenharia Civil. Na época era comum que estudantes quisessem ingressar na área das tecnologias, ou na da saúde. Os cursos de Artes ainda eram muito misteriosos. A cidade pequena, de interior, carregava-os com preconceito. No mesmo momento iniciou os estudos em Matemática na Centro Universitário Franciscano (Unifra). Chegou a dar aula como professor por um breve período.

 

No início da década de oitenta, Máucio decide dar atenção para o teste vocacional que havia feito no ensino médio. Notou que a Engenharia não era o que ele queria de fato e com influência de amigos, largou seu curso. “Queria trabalhar com comunicação, mas eu queria que fosse visual”, conta ele. Foi então, que decidiu curvar-se a um curso ainda muito novo na Universidade, que pertencia ao Centro de Artes e Letras: Comunicação Visual, hoje Desenho Industrial.

 

Desenhar era uma atividade que fazia desde criança, na escola já criava histórias e caricaturas de seus colegas e professores. Com isso, já no início de seus estudos no novo curso teve cartuns publicados no jornal tchê! de Porto Alegre. Nesse mesmo momento, começou a refletir sobre como assinaria seus trabalhos. Inspirado no nome artístico do cartunista Henfil e com ajuda de um amigo, decidiu unir o início de “Mário” com o final de “Lúcio” e assim nasceu “Máucio”, nome que o acompanharia por muitos anos, tornando-se também sua nova identidade.

 

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                                                                 Máucio com camiseta do jornal tchê! onde publicou seu primeiro cartum. Foto: Mariluce Lopes

Como estudante, vivenciou um momento de grande efervescência do Movimento Estudantil. Atuou em espaços de militância e criava cartuns de luta estudantil. Na época em que o teatro Caixa Preta ainda era uma reivindicação dos estudantes do CAL, criou os personagens Anfiti e Atro, para ajudar na campanha de sua construção.  Foi também um dos criadores do jornal da Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (CESMA), o Rascunho, que abordava um viés mais cultural. Após o período ditatorial, em 1985, criou um jornal próprio, o Retranca. Era um jornal mural com quinhentas edições, que ele deixava nas universidades, em escolas e bares. Sempre buscou abordar o jornalismo alternativo. Na década de 90, criou com mais três amigos a revista Garganta do Diabo, com viés humorístico.

 

Após ter o diploma em mãos, Máucio foi para São Paulo, onde residiu por cinco anos. Lá também iniciou seu mestrado, na Universidade de São Paulo (USP), mas o concluiu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No ano de 2000 fez concurso público para a UFSM e foi aí que iniciou sua carreira como professor da disciplina de Identidade Visual no curso de Desenho Industrial.

 

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Máucio quando era estudante da Universidade de São Paulo (USP). Foto: Arquivo Pessoal

 

Cansado da vida agitada da grande São Paulo, concluiu que Santa Maria seria o lugar em que conseguiria colocar em prática os projetos que havia idealizado. Dessa mudança de rotina, nasceram seus projetos mais significativos, como o Encontro de Cartunistas Gaúchos (Cartucho), que já está em sua 13ª edição e os Carrinhos de Lomba, que se realizou por dez anos como trabalho da disciplina de Solução de Problemas no curso de Desenho Industrial.

 

Hoje, Máucio ainda atua como professor na disciplina de Identidade Visual. Em seus dezoito anos de carreira, mais alguns como estudante, aprendeu e viveu muito a Universidade. Viu o curso de Desenho Industrial passar por mudanças curriculares, ganhar mais estrutura e professores. Presenciou a entrada de estudantes de baixa renda à Universidade, algo que não existia quando ingressou como estudante.

 

Em sua crônica E se a UFSM não existisse? expõem o que a instituição significa para ele. “Onde cada um de nós estaria? Eu, por exemplo, muito provavelmente, não estaria escrevendo este texto neste momento e também, talvez, nem este sítio existisse” afirma o professor em seu texto. Quando questionado sobre qual a importância do cartum em sua vida, coloca a poesia Traduzir-se de Ferreira Gullar como resposta, porque tudo para ele é linguagem e o que não é, torna-se vertigem.   

 

http://maucio.com.br/cronicas/e-se-a-ufsm-nao-existisse/

  

Texto: Amanda Xavier