O FACTORS 4.0 tem como argumento a concepção de bioarte, que acolhe diferentes práticas artísticas produzidas através de seres vivos e recursos naturais, em contato com meios e tecnologias artificiais. Essa concepção, mais recente no campo da arte contemporânea, pode ser entendida não apenas como uma pesquisa da área da arte entrelaçada com a área da biologia, mas também, da biotecnologia e da bioengenharia, propiciando relações transdisciplinares. Como proposição artística, a bioarte pode ser considerada como um conceito transversal para pensar a arte, a ciência e a tecnologia, suas implicações políticas e éticas. Nesse sentido, as obras/projetos expostos neste festival promovem um diálogo entre o natural e o artificial, em que os paradigmas da bioarte funcionam como uma plataforma de desdobramento ou, ao contrário, como termo de oposição, confrontação e contraponto crítico. Estas obras geram no conjunto do interesse transdisciplinar questionamentos sobre o entorno e os sistemas interativos, aproximando de modo instigante, e nem por isso menos conflitante, a investigação artística e científica. 
O festival, ao tratar da bioarte, não só perpassa propostas que abordam relações metamórficas entre os dispositivos e os ambientes naturais, mas vale-se da tecnologia para criar um vínculo entre diversos mundos sutis e frágeis e as possíveis ressignificações diante da presença de organismos vivos. Diversos problemas relacionados ao meio-ambiente, como a mudança climática, a extinção da diversidade da fauna e da flora, a deterioração e contaminação de solos, águas e ar, e o esgotamento dos recursos naturais, são evidências do grande rastro das atividades, processos e comportamentos humanos, que dia a dia transformam e deterioram nosso ecossistema. As obras revelam que a ressignificação dos elementos naturais utilizados se dá no momento em que eles são modificados, a partir da intervenção tecnológica e dos experimentos científicos, assim como no confronto com a ação da própria natureza. Mas cada obra revela também, naquilo que lhe constitui de natural e artificial, seus próprios paradigmas de bioarte. E pode desencadear no público, através de uma experiência artística e sensorial ao mesmo tempo particular e diversificada, uma postura de afastamento ou de aproximação, do compromisso coletivo.
Uma sinfonia acoplada de fluxos, que expandem a cena e a contraem ao mesmo tempo, constitui este entorno onde seres naturais e artificiais dialogam em igualdade de condições. Se a aventura (pós)humana questiona a hegemonia do sujeito, como entidade monopólica que garante a dinâmica de dominação, a presunção de uma relação interespécies cristaliza e expande o pensamento transdisciplinar.
 
Curadoria: Nara Cristina Santos (UFSM) e Mariela Yeregui (UNTREF)
Assistente Curadoria: Manoela Vares e Andrea Capssa (UFSM) e Ana Laura Cantera (UNTREF)
 

 

Em 2017, o Festival de Arte Ciência e Tecnologia do RS apresenta propostas transdisciplinares, individuais e coletivas, realizadas por artistas nacionais e internacionais, tanto com trajetória consolidada como jovens artistas. São onze obras/projetos que tratam de bioarte, incluindo biotecnologia e dialogando com a robótica.
Robôs Mistos (2016), um projeto do Grupo de Pesquisa Robots Mestizos (UNTREF), propõe um espaço para reexaminar certos princípios subjacentes na criação robótica. Os paradigmas robóticos se encontram ancorados no universo da modernidade e, portanto, fortemente vinculados à ideia do progresso, funcionalidade tecnológica e modelos tecnocráticos, todos suscetíveis de análise e colocados em crise em um contexto latino-americano onde a modernidade aparece como um conceito ilusório ou, ao menos, problemático. Para o grupo, o conceito central é a questão da invasão do Outro e, portanto, assume-se a necessidade de criar um Outro (Outro que invade, que manifesta sua alteridade monstruosa), assumindo sua natureza fronteiriça: Outro tecnológico/Outro Telúrico, inspirado nos seres mitológicos do imaginário latino-americano.
A ideia de invasão do Outro pode ser compreendida na obra de Eduardo Kac, não no que manifesta de alteridade, mas sim naquilo que revela como dualidade, entre dois seres vivos, porém, de espécies diferentes: um ser humano e uma flor. É o caso de Edúnia (2003-2008), uma petúnia transgênica criada na parceria entre Kac e cientistas da área da biologia e genética. Nesta planta, a criação parte do DNA do artista misturado ao DNA da flor, cuja proteína produz uma mutação na forma de veias vermelhas que estão visíveis em suas pétalas, originalmente cor-de-rosa. O gene é escolhido estrategicamente para ser inserido na flor, uma vez que ele é o responsável por rejeitar corpos estranhos do corpo do artista, o que contribui em parte para um questionamento sobre os limites do eu/Outro, mas, sobretudo para refletir sobre as implicações éticas na manipulação de plantas. 
Na videoinstalação Jardim colaborativo de Fritz Müller em Open Frameworks (2017), a artista Yara Guasque (UDESC) e Kauê Costa evidenciam a materialidade da interlocução entre o inglês Charles Darwin e o alemão naturalizado brasileiro Fritz Müller, que contribuiu com a teoria da evolução das espécies. Os naturalistas do século XIX trocaram mudas de plantas, as quais constam nos arquivos do herbário Kew Royal Botanic Garden, na Inglaterra. A obra revela o entrecruzamento biológico e social ao ressaltar as taxonomias e termos científicos compartilhados através da produção e das redes de conhecimento. Também gera implicações políticas e éticas, não nas parcerias estabelecidas, mas no envio e troca de material vivo para investigações científicas em outros países.
Parte do processo de desenvolvimento e de vida das plantas pode ser acompanhado na obra de Rebeca Stumm. Trans(forma)ação assistida (2017) constitui-se em uma instalação onde plantas são cultivadas em pequenos orifícios feitos na argila. Nesta obra, a artista tem a intenção de remeter à verticalidade de um jardim urbano ou floresta artificial, cujo crescimento acontece por meio da umidade, luz e compostos orgânicos. O processo é impregnado de visualidades e temporalidades distintas, à medida em que as plantas são geradas, crescem e se decompõem, mantendo o registro do seu ciclo vital. Organizada pelo acaso, a argila modelada em forma de potes, sustenta a vida das plantas e torna esta estrutura um misto de caos e equilíbrio.
Na relação mais direta entre arte, biologia, tecnologia e natureza, o artista Guto Nóbrega com apoio do Grupo NANO apresenta um trabalho que envolve plantas e microambientes, numa concepção denominada hiperorgânica. Em sua obra Bot-anic (2012), ele cria um ser híbrido entre o orgânico e o artificial, composto por uma planta e por um sistema robótico. Esse projeto interativo permite ao público presenciar uma planta reagindo ao ambiente em que se encontra, em estado de repouso e de interação. Tal como o que acontece com o girassol, o sistema robótico permite que a planta reaja ao ambiente e ao público presente na exposição, e se desloque para onde há luz, ingrediente fundamental para sua sobrevivência. O trabalho permite refletir sobre uma possível autonomia das plantas e seus comportamentos emergentes, numa experiência que pode afetar a consciência do interator sobre a relação entre plantas e máquinas e ampliar a sua compreensão do ambiente.
A influência da luz nas plantas também é objeto de pesquisa na instalação PLNT3 (2017), de Raul Dotto e Walesca Timmen, composta por uma planta que, sob influência de luz em variados comprimentos de ondas, permite acompanhar o seu processo biológico de geração. O crescimento e os estágios de desenvolvimento da planta também são expostos, a partir de registros fotográficos, através de um monitor. Os artistas optaram pelo uso da luz de LED, por sua eficiência energética e redução de calor. Esta iluminação proporciona um experimento alinhado com as contribuições que a tecnologia oferece como alternativa para um desenvolvimento sustentável. 
Com Rizosfera FM (2016), o grupo Eletrobiotas composto por Gabriela Munguía e Lupita Chávez, explora a diversidade e a possibilidade de novos diálogos interespécies através da instalação e intervenção sonora, com um conjunto de diferentes plantas presentes no mesmo lugar. Inspiradas nas infinitas formas de vida que habitam a rizosfera, seus processos e relações, as artistas constroem um complexo sistema orgânico-radiofônico vivo por meio da apropriação das emissões de rádio FM. A integração de elementos biológicos, de comunicação remota, da apropriação de tecnologias, do som, da luz, das frequências, dos ritmos, das sintonias e das possíveis linguagens na obra, propõem pensar a hibridação de sistemas como mecanismo e processo de co-criação, sensível ao olhar e interpretação sobre aqueles micro-habitats onde infinitos seres co-habitam, interagem, constroem e se expressam. 
Já a instalação Ausculta (2017), de Fernando Codevilla e Leonardo Arzeno, propicia um percurso ao redor de troncos de árvores dispostos no piso, cujos espaços de circulação entre os pedaços de madeira são preenchidos com sons emitidos por alto-falantes. O áudio é composto pela paisagem sonora de uma área florestal combinada com os sons gerados no processo de sonificação, por meio de sensores que captam a vibração das plantas. As imagens fazem referencia ao lugar onde ocorreu a captação sonora e revelam apenas silhuetas em um jogo de luz e sombra. Ao procurar auscultar as plantas, a obra evidencia os sons que estão presentes no nosso cotidiano, para os quais não estamos atentos, assim como pode revelar o nosso silêncio diante das ações contra a natureza.  
Uma possível transformação das ondas sonoras que habitam, invisíveis, o som ambiente ou ruído de fundo é proposta em Rio Callado (2017), instalação de Paula Guerzensvaig com apoio do designer de Juan Leon Sarmiento. A obra procura transformar o som e a sua percepção, através de um percurso pelo fluxo elétrico a fim de organizar uma cadeia de transducção eletro-acústica, composta por microfones subaquáticos (hidrofones), cabos, amplificadores e auto-falantes. Assim como o processo de cristalização de um mineral precioso, o som é captado, mediado e filtrado pela água, para logo ser decantado, ponderado e exposto. A água interfere no processo como uma peneira e seletor sonoro, oferecendo sua impressão particular. 
Ana Laura Cantera chama atenção para alguns processos naturais pouco perceptíveis, como a lenta decomposição de uma fruta em Evolução de uma partida (2015-2016). Nesta instalação a artista dirige seu olhar para aqueles fenômenos vitais de equilíbrio da biosfera, mas que escapam à visibilidade humana: a energia vegetal, o potencial da terra como substrato, o acionar das bactérias e a atividade de oxidação. Todos estes fenômenos são caracterizados como “miniaturas” e, nestes pequenos mundos, os dispositivos eletrônicos da obra possibilitam perceber a sucessão de morte, gênese e recomposição no ciclo da matéria através de um fruto que se descompõe e transmite essas modificações a uma matriz orgânica. Ela recebe a informação e altera as condições para o crescimento de micromundos e desenhos fúngicos.
As frutas, assim como outros vegetais, são também a questão central da obra do artista Gilbertto Prado e o Grupo Poéticas Digitais, que apresentam Máquinas de Choque 1 (2016), uma instalação composta de elementos orgânicos, como milho, pimentas e laranjas, além de dispositivos tecnológicos. Os elementos naturais, nessaobra, são utilizados como dínamos para geração de energia e possibilitar choques elétricos, em alusão aos processos de colonização portuguesa e hispânica. O título da obra faz referência aos Toqueros e suas caixas tradicionalmente usadas na Cidade do México para alívio do estresse, da embriaguez, ou apenas para provar a valentia daqueles que se autoinfligem os choques elétricos.
 
Expografia: Nara Cristina Santos, Cristina Landerdahl e Rittieli Quaiatto (PPGART/UFSM)
Mediação FACTORS 4.0: Rittieli Quaiatto (Coord.)
Mediadores: Amabile Menezes Tolio, Daniel Jaenisch Lopes, Dieina Marin, Emanuelle Rizzi Cecchin, Henrique Walter Ribeiro, Laryssa Machado da Silva, Pablo Rodrigues Pinheiro CAV/UFSM
Equipe Apoio Técnico/Tecnológico: Sérgio Luis May, Laurence Moraes CAL/UFSM e Evaristo José do Nascimento LABINTER
Marca: Carlos Donaduzzi
Design gráfico: Cristina Landerdahl
Organização/Divulgação: Jornalista Natascha Carvalho LABART/UFSM
Coordenação FACTORS: Nara Cristina Santos, Andrea Capssa, Carlos Donaduzzi e Fernando Codevilla
 

 

   
Cartaz FACTORS4 01okok

Folheto digital Factors BienalSur

Convite Digital Factors BienalSur

 

 

 

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Guto Nóbrega e Grupo Nano

Bot_anic, 2012

 MG 5864 WAL

Walesca Timmen e Raul Dotto Rosa

PLNT3, 2017

     

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Eduardo Kac

Edúnia, 2003-08

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Gilberto Prado e Grupo Poéticas Digitais

Máquina de Choque 1, 2016

     

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Gabriela Lílian Munguía Ortíz e Guadalupe Chávez Prado

Rizosfera FM, 2016

 MG 5892 WAL

Rebeca Stumm

Trans(forma)ação Assistida, 2017

     

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Yara Guasque e Kaue Costa

Jardim Colaborativo de Fritz Müller em Open Frameworks, 2017

IMG 9343 FER

Ana Laura Cantera

Evolução de uma partida, 2015 - 16

     

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Paula Guersenzvaig

Rio Callado, 2017

 MG 6331 WAL

Mariela Yeregui, Miguel Grassi, Laura Nieves e Leandro Nuñes

Robots Mestizos, 2016 

     

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Fernando Codevilla e Leonardo Arzeno

Ausculta, 2017

     
Imagens | Walesca Timmen, Fernanda Codinotti, Cassio Lemos