A INTERDISCIPLINARIDADE AO ALCANCE DA ESCOLA

 

 

Delcio Barros da Silva

 

A interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém. O texto é, creio eu, um desses objetos.

Roland Barthes (semiólogo e teórico literário francês).                                                                

 

1.      INTRODUÇÃO

 

Preliminarmente, pode-se afirmar que a interdisciplinaridade é considerada uma forma de pensamento que procura explicar os fatos sob diferentes pontos de vista. Daí resulta que a linguagem – objeto para o qual convergem diversas disciplinas – pode ser estudada, por exemplo, sob o ponto de vista da Psicologia da Aprendizagem, da Sociolingüística, da Psicolingüística, da Lingüística, entre outras abordagens igualmente importantes.

 

Hoje, há diversas formas de abordar a interdisciplinaridade, o que torna mais difícil uma reflexão sobre o tema. Muitos termos correlatos, como transdisciplinar, intradisciplinar, pluridisciplinar, multidisciplinar, são tentativas de conceituar a interdisciplinaridade nas suas diferentes versões no campo educacional, que podem ser sob o ponto de vista didático, epistemológico, sociológico, entre outros.

 

Neste trabalho, optou-se por uma tentativa de tratar a interdisciplinaridade  no aspecto didático, ou seja, na tentativa de esse novo conceito ser norteador na elaboração de questões dos processos seletivos da Universidade Federal de Santa Maria - Vestibular e Provas de Acompanhamento do PEIES. Deve-se reconhecer, no entanto, que é tarefa difícil tratar de qualquer versão da interdisciplinaridade sem considerar sua ligação natural com os aspectos epistemológicos que envolvem as ciências educacionais.

 

2.      FORMAÇÃO DO PROFESSOR

 

A formação do professor é também resultado de uma atividade interdisciplinar, à medida que exige dele o domínio de conhecimentos que extrapolam a sua mera especialização disciplinar. No ensino de Língua Portuguesa, o professor deve conhecer, por exemplo, Psicologia da Aprendizagem, para nortear seu trabalho em sala de aula, pois a metodologia a ser empregada dependerá de sua visão sobre a aquisição da linguagem. Pode-se dizer que somente assim terá condições de estabelecer um trabalho coerente entre teoria e prática. Se o professor acreditar que a aquisição da linguagem, como pensavam os estruturalistas empíricos, depende exclusivamente do ensino, continuará trabalhando com exercícios estruturais repetitivos, drills, instrução programada, etc., acreditando que o aluno, ao introjetar as estruturas lingüísticas, estará aprendendo português. Estarão na base desse trabalho os pressupostos de uma psicologia skinneriana ou behaviorista, do E-R.

 

Da mesma forma, o professor de português precisa conhecer Sociolingüística, para chegar a ter a compreensão de que a Língua Portuguesa é uma unidade na diversidade, ou seja, é uma só língua constituída de diversos dialetos, com maior ou menor prestígio social. Assim, o professor terá condições de realizar um trabalho, partindo do fato de que a modalidade culta, ensinada na escola, é apenas o dialeto prestigioso, que tem, como os demais, uma gramática própria, o que relativiza o erro em língua.

 

Já o conhecimento de Psicolingüística permitirá ao professor de língua compreender, entre outros, os diversos conceitos de leitura como processo. Se o professor acreditar  que a leitura é um processo ascendente, bottom-up, centrado no texto, continuará a conceber o aluno como objetivo do sentido do texto, alguém que está ali para decifrá-lo, digeri-lo, decodificá-lo. É o que denominam leitura logocêntrica, autoritária, sem possibilidade de negociação de sentido.

 

 No campo dos estudos lingüísticos, o professor poderá buscar auxílio nas contribuições da lingüística da frase, no estruturalismo de Bloomfield, Saussure e Jakobson, no gerativismo de Chomsky,  entre outros, ou nas modernas teorias do (texto) discurso, com base na Pragmática, Análise do Discurso, Lingüística Textual, etc. Através dessas diversas correntes da lingüística do discurso, o professor poderá encontrar subsídios para a realização de um trabalho que extrapole o nível da frase e considere os usos da língua na interação social. Nesse sentido, o lingüista neerlandês Teun Adrianus van Dijk afirma que “é através de textos e não de frases isoladas que nos comunicamos”.

 

Assim, a formação do professor de língua deve ocorrer nessa perspectiva interdisciplinar, cujas bases epistemológicas se fundamentam ora no empirismo, ora no racionalismo ou, mais recentemente, no interacionismo.  Evidentemente, suas opções epistemológicas deverão apresentar sempre um viés ideológico, tendo em vista que nem a educação enquanto ciência é totalmente neutra.

 

Em nosso atual sistema educacional, devido a diversos fatores, praticamente inexiste o trabalho interdisciplinar. Nossas universidades ainda não conseguiram  superar o positivismo presente tanto no ensino quanto na pesquisa. O máximo que têm conseguido realizar são encontros disciplinares, fruto da imaginação criadora, da curiosidade, do espírito mais aberto e (por que não dizer?) da coragem de alguns docentes que ousam desafiar o autoritarismo e o dogmatismo instituídos.

 

Aliás, a esse respeito, Japiassu[i] assim escreve:

 

(...) o interdisciplinar constitui um motor de transformação capaz de restituir vida às nossas mais ou menos esclerosadas instituições de ensino. Para tanto, mil obstáculos (epistemológicos, institucionais, psicossociológicos, psicológicos, culturais, etc.) precisam ser superados. Por exemplo: a situação adquirida dos “mandarinatos” no ensino e na pesquisa, inclusive na administração (cargos para os mais medíocres); o peso da rotina: a rigidez das estruturas mentais; a inevitável inveja dos conformistas e conservadoristas em relação às idéias novas que seduzem (ódio fraterno); o positivismo anacrônico que, preso a um ensino dogmático, encontra-se à míngua da fundamentação teórica; a mentalidade esclerosada de um aprendizado apenas por entesouramento; o enfeudamento das instituições; o carreirismo buscado sem competência; a ausência de crítica dos saberes fragmentados, etc. Todavia, o interdisciplinar deve responder a certas exigências: a criação de uma nova inteligência e de uma razão aberta, capazes de formar uma nova espécie de cientistas e de educadores, utilizando uma pedagogia nova, etc. (Japiassu, 1995)

 

Embora ensinar a ler e escrever seja tarefa da escola, que prioriza a modalidade culta da língua, não basta ao professor de português conhecer gramática tradicional. O conhecimento de outras disciplinas que convergem para o estudo da língua também é necessário. Na gramática gerativa, por exemplo, onde há preocupação com a gramaticalidade e, nesse ponto, aproxima-se da gramática normativa, o professor encontrará muitos conceitos reformulados e a abordagem lingüística ampliada, o que poderá auxiliá-lo na compreensão de como a língua funciona na realidade.

 

3.      CONCEITO DE INTERDISCIPLINARIDADE

 

A fragmentação do saber através da especialização está a exigir uma nova interação das disciplinas. Nesse sentido,  “o conceito de interdisciplinaridade” - conforme Mello[ii] – “fica mais claro quando se considera o fato trivial de que todo conhecimento mantém um diálogo permanente com outros conhecimentos, que pode ser de questionamento, de confirmação, de complementação, de negação, de ampliação, de iluminação de aspectos não distinguidos”. Nessa perspectiva, verifica-se ainda que muitas disciplinas se aproximam e se identificam, enquanto outras se diferenciam e se afastam, dependendo dos aspectos que se pretende conhecer.

 

Mais adiante, Mello[iii] acrescenta:

 

A interdisciplinaridade também está envolvida quando os sujeitos que conhecem, ensinam e aprendem, sentem necessidades de procedimentos que, numa única visão disciplinar, podem parecer heterodoxos mas fazem sentido quando chamados a dar conta de temas complexos. Se alguns procedimentos artísticos podem parecer profecias na perspectiva científica, também é verdade que a foto do cogumelo resultante da explosão nuclear também explica, de um modo diferente da física, o significado da bomba atômica.Nesta multiplicidade de interações e negociações recíprocas, a relação entre as disciplinas tradicionais pode ir da simples comunicação de idéias até a integração mútua de conceitos diretores, da epistemologia, da terminologia, da metodologia e dos procedimentos de coleta e análise de dados. Ou pode efetuar-se, mais singelamente, pela constatação de como são diversas as várias formas de conhecer. Pois até mesmo a “interdisciplinaridade singela” é importante para que os alunos aprendam a olhar o mesmo objeto sob perspectivas diferentes. (Mello, 1998)

 

4.      QUESTÕES INTERDISCIPLINARES

 

A Universidade Federal de Santa Maria tem empregado, em seus dois processos seletivos, Vestibular e Provas de Acompanhamento do PEIES, questões de múltipla escolha interdisciplinares. Ambos os processos têm como objetivo selecionar e classificar candidatos aos cursos de graduação da UFSM, por isso as provas são constituídas de questões objetivas, visando a classificar os candidatos mais bem-preparados.

 

Devido a essas exigências de objetividade das provas, a elaboração de questões do Vestibular e do PEIES devem obedecer a determinadas técnicas de elaboração para assegurar a confiabilidade desses instrumentos de avaliação, como validade,  fidedignidade e índices de discriminação. Outra característica importante dessas provas é o fato de serem elaboradas rigorosamente de acordo com  o Programa do Vestibular e o Currículo Básico do PEIES, visando a buscar uma coerência entre os conteúdos programáticos e o que se exige dos alunos nas provas.

 

Evidentemente, devido à natureza desses processos seletivos, os parâmetros de avaliação devem ser objetivos, quantitativos, fechados. O conceito de leitura adotado, por exemplo,  é centrado no texto, num processo ascendente, bottom up. Isso significa que as questões de interpretação de textos devem ser convergentes,  não havendo muito espaço para inferências ou negociações de sentido. Afinal, para cada questão, só poderá existir uma resposta (alternativa) correta.

 

Apesar dessas restrições de caráter epistemológico, institucional, psicológico, cultural, que envolvem os processos seletivos, as bancas de elaboração têm  apresentado diversas questões interdisciplinares nas provas do Vestibular e do PEIES. Na elaboração desses itens, tem sido empregada uma disciplina como contexto de outra e/ou a associação de duas ou mais disciplinas, numa aproximação item a item dos seus respectivos conteúdos programáticos.

 

Um exemplo desse tipo de questão interdisciplinar pode ser retirado da Prova de Acompanhamento III/98 do PEIES, da disciplina de História, elaborada por Vítor Otávio Fernandes Biasoli:

 

“Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com

livro ponto expediente protocolo

e manifestações de apreço do sr. diretor.”

 

Com esse poema, publicado em 1930, Manuel Bandeira rompe definitivamente com a estética parnasiana. Sua poesia, vinculada ao Modernismo, pode ser interpretada como

 

a)     a expressão estética do avanço das classes subalternas, que lutavam pela pureza das instituições políticas republicanas.

b)     o surgimento de um espírito literário capaz de questionar a estética dominante e, inclusive, a ordem social e política.

c)      a afirmação de um projeto de reorganização da sociedade a partir da burguesia industrial e do trabalhador urbano.

d)     o rompimento com a lógica do mundo industrial, que privilegia a tecnologia, a burocracia e a concentração do capital.

e)     a expressão literária de uma ideologia que valoriza a organização do Estado por uma elite esclarecida cientificamente.

 

Nessa questão, associou-se o item Semana da Arte Moderna do programa de Literatura Brasileira ao de História, ou seja, “ligou-se” a obra de um autor modernista aos aspectos político-ideológicos daquele período específico de implantação do sistema oligárquico no Brasil. Dessa forma, o elaborador empregou conhecimentos da disciplina de Literatura Brasileira como contexto de uma questão de História (a contextualização também pode ser vista como um tipo de interdisciplinaridade).

 

Como encaminhamento à solução desse item, o autor fez o seguinte comentário:

 

A alternativa correta é a b. A alternativa versa sobre os desdobramentos da Semana da Arte de 1922 e seus resultados no campo político-ideológico. O candidato deve interpretar os versos de Manuel Bandeira e compreender que o espírito libertário do poeta vai além do questionamento da estética dominante e também atinge a ordem social e política. Mas não é a expressão estética das classes subalternas, nem de uma ideologia que envolve o Estado. Não afirma um projeto de sociedade industrial, nem rompe com a lógica da industrialização. É um grito de liberdade e a busca do novo, como propunham os artistas da Semana de 22, visando à construção de uma nova sensibilidade.

 

Esse tipo de questão interdisciplinar – como disse Roland Barthes na epígrafe – pode ser considerado um “objeto novo, que não pertence a ninguém”. É, na realidade,  um novo texto que incorpora conhecimentos de História, Literatura, Língua, etc, podendo ser incluído, mediante adaptações, na prova de qualquer uma dessas disciplinas. 

 

5.      CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Conforme se procurou demonstrar neste artigo, a interdisciplinaridade pode ser vista como uma nova concepção do saber e do processo de ensinar, ou seja, um novo princípio norteador da reorganização dos diversos objetos de estudo e de reformulação das estruturas pedagógicas. Na prática, para superar a fragmentação do saber decorrente da especialização, a interdisciplinaridade representa uma possibilidade de negociação de pontos de vista, de diálogo e de interação entre as disciplinas.

 

Nos seus processos seletivos, a UFSM tem demonstrado que é possível empregar questões de múltipla escolha interdisciplinares tanto nas provas do Vestibular quanto do PEIES. A exigência de objetividade, de discriminação das questões e as restrições impostas por um currículo por disciplinas não se constituem obstáculos insuperáveis para os elaboradores. Ao contrário, a criatividade das bancas tem-se revelado altamente produtiva na elaboração de itens que desafiam o interesse e a curiosidade da maioria dos candidatos que se submetem às nossas provas.

 

Em síntese: a interdisciplinaridade, enquanto prática de interação entre os componentes do currículo,  é difícil de ser alcançada, devido aos múltiplos empecilhos que se interpõem no processo educacional, mas permanece como um ponto de excelência a ser perseguido.

 

BIBLIOGRAFIA

 

HENRIQUES, Vera Maria.  Campo Educacional: Identidade Científica e Interdisciplinaridade. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos.  Brasília, 1993. p. 655-680.

JAPIASSU, Hilton.  A Questão da Interdisciplinaridade. Signos.  Lajeado : FATES, 1995.  p. 7-12.

MELLO, Guiomar Namo de.  Diretrizes Nacionais para a Organização do Ensino Médio.  Brasília : CNE, 1998.  p. 33-36.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA.   Manual de Elaboração de Questões de Múltipla Escolha.  Santa Maria : COPERVES, 1999.  p. 27.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA.  Prova de Acompanhamento III/98 do PEIES.  Santa Maria : COPERVES, 1998.  p. 12-13.

 

 

 



[i] JAPIASSU, Hilton.  A Questão da Interdisciplinaridade. In: ____ Signos.  Lajeado : FATES, 1995, p. 7-12.

[ii] MELLO, Guiomar Namo de.  Diretrizes Nacionais para a Organização do Ensino Médio.  Brasília :  CNE, 1998, p. 33-36.

[iii]  Idem, ibidem, p. 34.