DESFAZENDO O MITO DO
SUPER-HERÓI DOCENTE
Rogério
Alencar Ferraz de Andrade
Este artigo procura investigar
acerca da influência das concepções sociais sobre a figura do professor de
Língua Materna como único responsável pela motivação dos alunos para a aprendizagem.
Com uma breve introdução acerca do desenvolvimento da teoria da motivação pelas
duas principais correntes psicológicas que situam a aprendizagem como centro de
sua preocupação e uma análise das posturas defendidas pela teoria relacional de
Joseph Nuttin e complementadas pela pedagogia simbólica junguiana, o artigo
tenta descrever a importância dos fatores que normalmente são deixados de lado
nos estudos comumente desenvolvidos.
Trata-se da tentativa de voltar os olhares dos educadores para outros
paradigmas essenciais na ordem do aprender e do significar a tarefa dos
educadores entre si, com os alunos e com toda a sociedade.
É
mudando práticas que se reconfiguram os conceitos e refazem-se as concepções.
Dessa perspectiva nasceu o presente artigo bem como o desafio de investigar as
fontes da motivação para a aprendizagem de línguas. A opção ocidental pelo
desprezo da subjetividade e uma ampla e declarada adesão ao experimental gerou
dilemas complexos e aparentemente impossíveis de resolver. Ao dilema da motivação para a aprendizagem,
que é o tema do presente artigo, acoplou-se, por exemplo, o mito do super-herói
docente. Supõe-se que o êxito ou o fracasso dos alunos deve-se ao preparo do
professor, que além do saber precisa conciliar empatia, criatividade, segurança
e acima de tudo, pressupostos psicológicos capazes de prender a atenção dos
educandos.
Uma análise detalhada da realidade
contradiz as concepções que defendem tal postulado. Inúmeros professores bem
preparados, criativos, capazes de chamar a atenção dos alunos em sala de aula
fazem coro ao grupo dos educadores que reclamam das dificuldades em motivar os
educandos para aprender e estudar a própria língua com suas nuances e
particularidades. A conseqüência dessa realidade revela-se na limitação
cultural que se expressa nas redações dos vestibulares e na linguagem
monossilábica dos adolescentes e jovens. De outro lado, os professores
sentem-se limitados carregando uma carga de culpabilidade imputada pela
sociedade e sedimentada pelas constantes opiniões da mídia que não hesita em
anunciar as limitações dos educadores.
Este artigo pretende elucidar outros
fatores inerentes à motivação humana e que podem ajudar a re-significar a
presença dos educadores em salas de aula, de forma a conciliar o mundo interno
da escola e o mundo externo (que os educandos trazem consigo).
2.
CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA
Pesquisas realizadas
pela psicologia puseram, em grande parte, os marcos para o estudo da motivação
humana. Duas correntes configuram o divisor de águas entre as teorias e
pesquisas desenvolvidas nesse campo. De um lado, os psicólogos que trabalham a
partir das motivações ocasionadas pelas necessidades (positivas ou negativas)
do organismo. Assim, Woodworth apud
Nuttin (1978, p 114) trabalha as motivações a partir do plano das necessidades
de percepção, pois para ele estamos inteiramente relacionados com o meio e
dominados por móveis como o desejo de ver, ouvir, ver claramente, ouvir
distintamente. Nessa mesma perspectiva situam-se Wundt com seus estudos acerca
da fisiologia, posteriormente desembocando nos teóricos do comportamentalismo
cujos representantes mais notáveis são Watson, Hull e Skinner, entre outros.
A perspectiva
humanista, iniciada pela hierarquia de necessidades proposta por Maslow,
influenciado pela antropologia, muda radicalmente sua perspectiva em relação ao
estudo do ser humano. Nessa mesma perspectiva encontram-se as pesquisas de Kurt
Lewin, que dá um passo adiante procurando entender o ser humano dentro do
contexto em que o mesmo se encontra ou é gerado. Influenciado pelos psicólogos da Gestalt, Lewin centra nas
necessidades e na personalidade o seu trabalho através da perspectiva social
que atua sobre o comportamento das pessoas. E por essa mesma senda já havia
trilhado o pensamento do russo Lev Semenovich Vygotsky, que empreendera seu
estudo em busca das íntimas conexões entre a linguagem e o meio e as
influências de ambos no processo de aprendizagem.
Há uma oscilação
entre o orgânico (interno), também chamada motivação intrínseca, e o ambiental
(externo), conhecido como motivação extrínseca. É em torno desse eixo que giram
quase todas as obras de psicologia que enfocam o tema da motivação.
Encontramo-la nessa condição em Gagné (1974), Campos (1979), Gauthier (1998),
entre outros.
2.1 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA RELACIONAL
Na elaboração e
explicitação de suas concepções acerca das motivações, Nuttin não despreza os
espaços fisiológicos como portadores do impulso que impele o homem a agir. No
entanto, não centra neles as suas perspectivas, pois para ele (1978, p. 130):
...É possível que o homem necessite
alguma forma de relação social que lhe dê o sentimento de ser ou de significar
algo para os outros ou, em outras palavras, uma necessidade de consideração
pessoal.
E ainda em (1978, p.
137):
A motivação da personalidade constitui o
elo central no processo de integração que une a civilização e a personalidade.
Influenciada por algumas práticas sociais primárias a personalidade e suas
tendências determinam por usa vez a estrutura das instituições culturais.
No entanto, para
Nuttin, as motivações não permanecem apenas no campo do fenomenológico do
homem, mas encaminham-se sobretudo para o campo das elaborações cognitivas de
suas necessidades. Por isso, para ele (1978, p. 140-141): “...O estado de
motivação não se manifesta somente no fato da execução de algumas atividades exteriores, mas também na elaboração
de planos e projetos do que deseja fazer”.
As motivações
alcançam o nível mais profundo da realidade humana, que é a consciência e não
param aí, manifestam-se através da linguagem, por vezes. Por isso, para o
criador da Teoria Relacional o marco teórico do estudo da motivação não se
centra no que, mas no como, isto é, na concepção que a pessoa tem
de si mesma. Por isso afirma (1978, p. 146) que: “É a maneira de conceber a personalidade que impõe nossa concepção
das necessidades e a motivação humana”.
Com este marco,
Nuttin inverte as perspectivas no estudo da motivação e o que antes era olhado de
fora para dentro, agora é observado de dentro para fora. Trata-se de um olhar a
partir do sujeito enquanto co-criador das necessidades a partir das
necessidades que ele mesmo cria. Por isso, para ele o centro da motivação
encontra-se na personalidade e dinamiza-se através de dois pólos: eu/mundo e
organismo/meio. O conjunto de interações entre esses dois pólos é o dado primário
que constitui a personalidade. A conduta é então reflexo da motivação e não o
contrário. O autor confirma essa tese (1978, p 149) quando diz que a motivação:
...é o fator responsável do fato de que a
conduta não consiste em atividades e contatos com qualquer objeto, mas que
procura realizar certos tipos de relação com
categorias de objetos que qualificamos de privilegiados, já que são os únicos
que podem satisfazer ao organismo ou a personalidade.
Essas relações, no
entanto, não acontecem por acaso, mas constroem-se no contato com o mundo de
forma contínua. Por isso, a forma como conhecemos o mundo (quer via educação,
quer via percepção) faz irromper as
motivações e os comportamentos nas diferentes situações. Ele mesmo se pergunta,
não acerca do que conhecemos — pois isto é peremptório e de pouca valia para um
estudo sistemático e metódico da motivação — mas acerca do como conhecemos. A conclusão a que chega é esta (1982, p 115):
...como é que
se constrói, progressivamente, esse arsenal de experiências cognitivas, de
motivações e de orientações concretas, assim como esse dispositivo reacional,
que entram como elementos materiais e formais no funcionamento da
personalidade? É o problema da aprendizagem, concebida como processo geral do
desenvolvimento da personalidade em função da experiência e da conduta
anteriores, isto é, como enriquecimento e acabamento progressivos.
Nessa progressão e
acumulação de saberes e motivações centra-se a teoria relacional, pois nenhuma
conduta constrói-se no momento atual. Elas passam pela significação contida nas
informações que os sentidos conduzem ao cérebro que irá distingui-las e
valorá-las através das percepções. Entretanto, tais afirmações trazem em seu
bojo antigos questionamentos, pois de certa forma, retomam a questão da
autonomia no agir, uma vez que o ser humano não tem claro todos os elementos
que o impelem a agir de determinada maneira. Nuttin não nega isso, ao
contrário, resolve a questão ao relativizar a autonomia das ações. O que para ele não se trata de fazer tudo o
que ser quer, mas de ser fiel ao desenvolvimento de inserção que a
personalidade vai construindo com o mundo que a rodeia.
A teoria relacional
é um grande marco na história da psicologia e da própria aprendizagem, pois põe
balizas ao que até então era tido como definitivo no campo das motivações
humanas. E esse fato tem incidências no campo da educação e especialmente no
ensino da língua materna, pois até agora pouco tem sido feito para libertar o
ensino de línguas da espiral behaviorista
que procura partir dos influxos exteriores, o que não tem nenhum valor e nem
pode alcançar as motivações intrínsecas que se sedimentaram em cada uma das
personalidades dos educandos. Ora, tal teoria aponta para algo ainda mais
sério: o processo de formação das motivações dos próprios educadores, pois este
influenciará de forma direta suas
práticas e, conseqüentemente, as relações estabelecidas com os educandos (o que
pode trazer resultados positivos ou negativos, dependendo de variáveis como
equilíbrio do professor, ambiente, disponibilidade material, etc).
Passamos a contruir
aproximações de forma dialógica na interface da teoria relacional com a teoria
interacionista de Vygotsky. Esta afirma a dinamicidade do processo de
desenvolvimento quando defende que (2001, p. 409):
...a relação entre o pensamento e a
palavra é, antes de tudo, não uma coisa, mas um processo, é um movimento do pensamento
à palavra e da palavra ao pensamento. À luz da análise psicológica, essa
relação é vista como um processo em desenvolvimento, que passa por uma série de
fases e estágios, sofrendo todas as mudanças que, por todos os seus traços
essenciais, podem ser suscitadas pelo desenvolvimento no verdadeiro sentido da
palavra.
Esse desenvolvimento
pode ser captado na própria linguagem, pois ela é o campo de realização do
pensamento que colhemos nas práticas sociais e nos discursos estabelecidos como
legítimos no campo da educação. Torna-se fundamental estudar a dinamicidade
desse desenvolvimento conceitual e lingüístico dos educadores, tendo em vista
as motivações construídas através do contato com o mundo e manifestado primeiro
na concepção de si (teoria da personalidade) e posteriormente nas práticas pedagógicas.
2.2 O EDUCADOR SUPER-HERÓI: UM MITO
É inegável o papel
do educador no processo de formação da motivação para o aprender. Não fosse
assim, não haveria sentido que justificasse sua presença na escola. No entanto,
a complexidade do mundo moderno exige um olhar aprofundado que tenha por escopo
a análise dos diferentes fatores que interagem e influenciam não apenas o
desenvolvimento das atividades em sala de aula, mas ainda as motivações dos
educandos para dirigirem-se à escola e lá permanecerem durante um certo período
de tempo para aprender.
Apesar da
criatividade do educador ser fundamental como motivação extrínseca e inicial
para a aprendizagem, não se pode prescindir das concepções que os educandos têm
da escola, da disciplina em questão, dos professores e do futuro que os
aguarda. E, nas concepções
estabelecidas acerca do aprender, destaca-se a separação entre a emoção e a
razão. É do senso comum que a escola geralmente é freqüentada não tanto pelo
suposto gosto de estudar, mas principalmente pela necessidade de “nos tornarmos
alguém”. De acordo com Bohn apud Leffa (2001, p. 120): A separação do cartesianismo entre corpo e mente seja talvez a origem
de um dos grandes problemas da escola de hoje: a falta de motivação dos alunos
para a aprendizagem, fruto da ausência de emoção.
Sendo assim, a
escola não convida para a criatividade, pois só pode estabelecer-se nela quem
se adapta ao que ela propõe como sendo cultura. É assim que Bohn conclui a
impossibilidade de haver motivação e criatividade onde não há espaço para a
emoção, uma vez que nossas motivações provêm justamente dos sentimentos. “O
novo só pode florescer se a mente estiver isenta de crenças, ideologias, dogmas
restritivos. O sistema de crenças faz o filtro de nossa aprendizagem e de nosso
ensino” (Bohn apud Leffa, 2000, p. 120). Partilha dessa posição o psicoterapeuta
Byington, que insiste na importância das emoções enquanto parte integrante do
ensino a ser considerada pelos educadores. “O saber motivado emocionalmente
pode tornar-se uma das mais apreciadas atividades humanas.”( Byington,
2004, p. 30).
Existem ainda
inúmeras outras variáveis que interferem na motivação para a aprendizagem de
língua materna. Cada uma delas deve ser avaliada e estudada dentro do contexto
em que estão inseridos os educadores e educandos. A rapidez do mundo
pós-moderno, as atividades que os educandos desenvolvem fora da escola com as
novas tecnologias de que dispõem em contraposição ao modelo sucateado de escolas
que dispõem de pouca ou de nenhuma tecnologia, são exemplos da diversidade de
reações diante da tentativa dos educadores em motivar os que lhes são confiados
pelos pais e pela sociedade para aprender.
Acrescente-se que as concepções de ensino de línguas (tornadas
convenções sociais) segundo as quais: a) o professor deve saber tudo; e b)
depende somente dele que os alunos aprendam e realizem competentemente as
tarefas de um falante nativo, mostram-se distantes da realidade. Pois não são
poucos os professores que, mesmo dispondo de excelente preparo e dinâmicas em
sala de aula, não logram êxito em seus empreendimentos.
Há elementos que vão
além do imediatismo pretendido com um conteúdo ou outro desenvolvido. Para
Byington (2004, p. 30): “para o professor
avaliar sua eficácia na aplicação desse ensino ele deve se perguntar
sempre: 1) o que vou ensinar hoje
inclui a sua utilização na vida? ... 2) essa aplicação tem importância na minha
vida, na vida em geral?” Quer dizer que o educador precisa considerar não apenas
o que, mas o por quê e o como vai ensinar. Tratam-se dos critérios da aplicabilidade
e da utilidade.
No ensino da língua
materna, tem-se discutido amplamente e de forma incisiva sobre a inutilidade do
ensino da gramática pela gramática, no entanto, a prática tem demonstrado pouca
criatividade e inovação e as rejeições dos estudantes continuam sendo encaradas
a partir do paradigma do aluno-gênio (quando se interessa e faz tudo conforme o
professor propõe) e/ou do professor-mágico (ou super-herói), que consegue a
façanha de despertar o interesse dos educandos para a sua disciplina.
2.3. A
PEDAGOGIA SIMBÓLICA JUNGUIANA
A pedagogia
simbólica junguiana aponta a necessidade de compreender a significação dos
conteúdos para a vida do educando, tendo em vista que não levar em conta esse
aspecto torna os conteúdos estéreis e as pessoas alienadas. É o que afirma o
psiquiatra Byington (2004, p. 23):
...o ensino de coisas não inseridas no
contexto pragmático do aluno equivale à introdução de um carrapato no cérebro,
que suga a memória e a inteligência
para si, tirando-as da vida do aluno. A transmissão do ensino inútil propicia a
alienação e o desperdício da inteligência existencial do aluno, do professor e
da escola, bem como dos recursos de sua família e da sociedade que o custeia.
Com vistas a
libertar-se das concepções estagnadas acerca da missão do educador como um
transmissor de conceitos e regras, a pedagogia junguiana pretende inserir o
aspecto emocional como centro da educação, de forma que os educadores
considerem elementos tais como a empatia, a história de vida do educando e suas
relações com a família e com o mundo que o cerca. Nesse sentido, esboça-se uma
ponte entre a psicologia de Jung e a teoria de Nuttin na tentativa de apontar
outros caminhos a serem observados doravante pelos docentes de língua materna.
Isto se torna viável na medida em que a teoria relacional possibilita uma retomada
de concepções e pré-concepções e mostra-nos a emergente necessidade de rever o
papel dos educadores, de modo que sua tarefa recobre a justa medida e sua quota
de participação na motivação dos educandos seja equacionada de forma a não
superestimar nem subestimar as capacidades e obrigações dos educadores.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento
atual das concepções acerca das interferências inconscientes nas motivações
humanas está sendo valioso auxílio para educadores repensarem seu papel e
significado na escola e na sociedade. Enquanto muitos mantêm concepções
estagnadas acerca dos papéis sociais que os indivíduos exercem, como se tudo
devesse manter-se sempre da mesma maneira, outros decidem-se pela desafiadora
tarefa de revisar posturas e práticas. Entre a perspectiva tradicional que
encarava o professor como detentor do saber e a perspectiva laxista que concede
ao professor o lugar do aniquilamento e da superficialidade situa-se a posição
de quem se compromete em buscar alternativas para os problemas enfrentados pela
escola e pela sociedade no sentido de viabilizar aos educandos caminhos que os
ajudem a realizarem suas existências e construírem personalidades saudáveis e
responsáveis.
A sociedade tem
empurrado para a escola os problemas que não consegue resolver e a escola
devolve-os muitas vezes sem ter sequer tomado conhecimento dos problemas que
envolvem a cotidianidade dos educandos.
Entre a escola e o educando há mais variáveis que se possa imaginar e
isso é relevante no ensino da língua materna.
A teoria relacional aponta para essa dimensão e ajuda-nos a levar em
conta os conceitos firmados no inconsciente de cada indivíduo, afinal, a
educação embora coletiva, dá-se de forma individual, pois as relações atingem diretamente
a pessoa envolvida com a educação. A teoria de Nuttin mostra-nos que já não é
mais suficiente situar a motivação entre o intrínseco e o extrínseco, pois nem
sempre dependem do querer e nem sempre são conscientes. E a psicoterapia
junguiana auxilia-nos no sentido de entender as diferentes matrizes conceituais
formadas no inconsciente das pessoas através das vivências. É preciso captar na
linguagem e nas práticas dos educadores e educandos as diferentes concepções
advindas dos contatos que travamos constantemente com outras pessoas.
Para se desfazer o
mito do professor super-herói é mister levar em consideração as formas como
cada educando concebe o mundo com vistas a investigar a possibilidade de
interferências dessas concepções no desenvolvimento eficaz da aprendizagem de
língua materna.
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