Para ensinar alunos a serem autores

Diário de Santa Maria, 26/04/2014, Mix, Pág. 06.

 

O incentivo à leitura e a conscientização sobre sua importância devem vir tanto da família quanto da escola, como enfatiza o professor Jorge Luiz da Cunha. E em Santa Maria, um projeto de extensão da UFSM leva essa certeza em forma de oficinas práticas para escolas da rede pública.

Coordenado pela professora Cristiane Fuzer, o Ateliê de Textos foi criado em 2011, a partir de uma disciplina complementar de graduação do curso de Letras da UFSM. Unindo a ideia da acadêmica Taciane Weber com a vontade da professor, de beneficiar a comunidade com resultados de pesquisas voltadas ao trabalho com a linguagem, o projeto entrou na grade extracurricular de quatro escolas públicas de Santa Maria e beneficiou mais de 60 crianças. No ano passado, a ação foi reconhecida com o Prêmio RBS de Educação.

– Chamamos de Ateliê de Textos, uma vez que a metodologia que desenvolvemos e o produto final têm certa semelhança com o que buscam os artesãos que trabalham juntos em prol de uma obra – explica Cristiane.

Segundo a professora, o processo funciona assim: no 1º semestre, são feitos contatos com as escolas interessadas, é organizada a logística e são planejadas as atividades de cada oficina. Durante o 2º semestre, as oficinas são divulgadas nos colégios, os alunos se inscrevem, e as atividades são desenvolvidas nas instituições de ensino, no turno inverso às aulas. Em média, são realizados 12 encontros semanais.

Histórias criadas pelos alunos viram livro

Paralelamente, na UFSM, as reuniões da equipe são feitas semanalmente, para aprimoramento das atividades das oficinas, até o lançamento da obra, com os textos produzidos pelos alunos que participam das oficinas.Desde 2011, três edições do Ateliê de Textos já foram realizadas em quatro escolas públicas de Santa Maria.

Depois dos encontros e da produção literária, os alunos têm a chance de ver seu trabalho estampado em livro, que é lançado em cerimônia prestiagiada por toda a comunidade escolar.

– Me emociono em acompanhar o progresso, tanto dos alunos de Letras participantes do projeto, que se tornam excelentes professores de produção textual, quanto dos estudantes do Ensino Básico, que se transformam ao longo do processo em vários aspectos. Divertindo-se, desenvolvem saberes linguísticos fundamentais: a leitura, a escrita e a criação literária – comenta Cristiane.

A mestranda Letícia Lima, que faz parte da equipe do projeto, comenta a importância do trabalho do Ateliê de Textos também como um objeto transformador dentro de uma realidade de vulnerabilidade social. Ela conta que, em uma das edições do projeto, um dos alunos se envolveu tanto que colocou, na sua produção textual, um pouco de sua própria história, contando algumas dificuldades vividas na sua família.

– Esse aluno tinha um problema familiar no convívio com o pai. Ele se inseriu no texto, e dentro da história, reconciliou-se com o pai. É muito importante essa contribuição – comenta Letícia.

Neste ano, devem ser desenvolvidas atividades do Ateliê de Textos em outras duas escolas municipais de Santa Maria (Vicente Farencena e Pão dos Pobres), além de escolas de Cachoeira do Sul e de Júlio de Castilhos.

Da tela para o livro, ou vice-versa

Apesar de muitos críticos (e até leitores e escritores) entenderem que best-sellers não são base para um bom conhecimento literário, não se pode negar que, muitas vezes, eles favorecem o gosto pela leitura. Prova disso é o crescimento das vendas de livros que deram origem a séries de TV ou longas-metragens para os cinema. Sagas literárias como Game of Thrones aliaram seu sucesso ao que pôde ser visto na tela pequena ou grande.

Na semana passada, foi lançado em Santa Maria o filme Divergente, baseado no primeiro livro da trilogia de ficção escrita por Veronica Roth. Jean Rossi, 17 anos, estudante da Escola Cilon Rosa, organizou um evento que antes da estreia, no hall das salas de cinema do Royal Plaza Shopping. Um grupo de fãs estava lá para ver o livro em movimento.

Jean conta que começou a se interessar pelos livros de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Jogos Vorazes depois de assistir aos filmes. E isso foi só pontapé inicial para buscar outras obras literárias. Tanto que ele decidiu ler o primeiro livro da trilogia Divergente antes do filme, “convidado” por um trailer do longa. E o gosto pela leitura vai ainda mais longe:

– A maioria das obras que gosto são sagas, mas também comecei a me interessar pela literatura brasileira, como contos de Machado de Assis e livros de José de Alencar – comenta.

Criador de um fã-clube de Percy Jackson, o estudante de Produção Editorial Denys Schmitt, 19 anos, já leu todos os livros de Divergente e que sua paixão por sagas começou com Harry Potter. Mas seu gosto vai além.

– Leio vários outros autores de ficção científica, literatura brasileira e romances. Também já passei pela experiência de primeiro ver o filme e ao ler o livro, preferir muito mais o livro do que a adaptação – conta.

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