Com passos de formiga, mas com vontade

Diário de Santa Maria, 30/06/2014, Opinião, Pág. 04.

 

Gloria Conceição

No que diz respeito ao serviço público, não deixo de lembrar de parte da canção Assim Caminha a Humanidade, de Lulu Santos, pois, de forma geral, quem depende desse serviço também tem a impressão de que se anda a passos de formiga. Diante de um histórico de acontecimentos e de um exponencial crescimento de demandas, que não condiz com a infraestrutura de patrimônio e de recursos humanos deste contexto, deparamo-nos com lentidão.

Por vezes, nós, servidores, sentimo-nos impotentes, principalmente com o famigerado estereótipo de “não dedicados ao serviço”, que temos perante a sociedade. Somos cobrados diuturnamente para sempre apresentarmos bons resultados. Entretanto, será que temos tido condições de exercer a nossa função com qualidade? Temos recursos estruturais, técnicos, financeiros e, principalmente, humanos para tal?

Nas situações-problema em que os processos parecem não andar, a sociedade em geral vislumbra as piores hipóteses possíveis, as quais recaem diretamente sobre os servidores e que, não raro, causam impactos negativos a sua saúde. Ou ele estava de má vontade, ou tirou o telefone do gancho, não quis atender etc, etc, etc. Geralmente, essas conclusões descabidas acontecem sem que o contexto de trabalho dos servidores seja considerado. Esquecem que, por vezes, o excesso de trabalho e a inadequada organização estrutural beiram a insalubridade.

Pergunto-me: quando os servidores deixaram de servir à sociedade, de fato? Quando o servidor público ganhou a fama de “casaco na cadeira-corpo ausente”? A mim, nunca faltou serviço e, muito menos, boa vontade em desenvolvê-lo. Porém, há que se mencionar: recursos já faltaram. Por fim, suponho que um somatório de acontecimentos, entre eles, um crescimento desenfreado de algumas demandas e uma falha gestão administrativa em âmbito nacional sejam responsáveis por um processo de descrédito do funcionalismo público.

É inegável a necessidade de reforma na gestão pública brasileira. Porém, não é razoável que se adotem conceitos da iniciativa privada, aplicando-os desordenadamente ao setor público, sem qualquer filtro ou adaptação. É necessária uma reforma que respeite as especificidades do contexto público e, além disso, precisamos resgatar o valor que o servidor público representa para a sociedade.

Imersos nessa realidade, não é estranho que se caminhe como formiga mesmo. Afinal, existem pouquíssimas formiguinhas empenhadas e lutando por melhorias. Pior, além disso, ainda é preciso enfrentar cigarras que sabem apenas cantar, enquanto as formigas trabalham. Apesar de tudo isso, nem todas as formiguinhas caminham sem vontade, como na canção de Lulu Santos. Mais ainda, independentemente da líder, algumas servem até o fim, pensando sempre no bem-estar do formigueiro.

Servidora pública federal da

UFSM/Departamento de Registro

e Controle Acadêmico (Derca)

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