Mais de 30 anos

Diário de Santa Maria, 05/08/2014, Diário 2, Pág. 8

No começo dos anos 70 do século passado, o Marcos Valle cantava em uma composição que virou provérbio: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Era um tempo de contracultura, de movimento hippie e de “paz e amor”. Na sequência da canção, sentenciava: “O professor tem mais de trinta conselhos/ Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta.” Lembrei e mencionei esse trecho da música popular, para registrar que, neste início de agosto, completo 30 anos de magistério superior na nossa UFSM. Ao longo destas três décadas, pude testemunhar mudanças significativas na vida nacional, como as diversas moedas, os diferentes regimes, as reviravoltas dos costumes. Em especial, as transformações do ensino universitário pelo qual transitei da condição de aluno e professor. Assim, tive a oportunidade de participar em ações a favor da universidade pública e gratuita.

Quando ingressei na carreira docente, em 1984, o país ainda era sacudido por sucessivas ondas de mobilização contra os arbítrios da ditadura. Havia luta, não apenas no terreno político, como o movimento Diretas Já, mas também no plano educacional, em vista de projetos privatizantes da universidade (como o projeto Geres). Logo em seguida, já em plena Nova República, a movimentação pela equiparação entre autarquias e fundações, em 1987. Durante o governo Collor, foi preciso fazer frente à implantação de um modelo neoliberal que tinha como meta o “enxugamento da máquina pública” e a diminuição do tamanho do Estado, o que implicava diretamente a precarização da universidade pública. Esse esforço culminou com o movimento pela ética na política que levou ao primeiro impeachment de um presidente brasileiro. Os efeitos colaterais desta desastrosa gestão ainda se fizeram sentir por mais de uma década.

Nos últimos anos, com a grande expansão de vagas e a reestruturação do sistema federal, foi possível vislumbrar onde poderemos chegar, como nação, proporcionando a qualificação dos jovens para ocuparem postos avançados no caminho do desenvolvimento. Tenho orgulho, na mesma medida, de ter contribuído de algum modo com a manutenção da nossa Universidade de Santa Maria dentre as melhores do país, segundo ranking internacional divulgado semana passada. Fechando com o que o cantor dizia: “ Eu meço a vida nas coisas que eu faço/ E nas coisas que eu sonho e não faço”, eu sei que só se consegue uma classificação destas com muito trabalho e dedicação, o que requer muitos anos, certamente mais de trinta.

Professor e escritor

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