UFSM investigará trote que deixou estudante em coma

Jornal A Razão, 15/08/2014, Edição Online

Jovem de 18 anos foi levado para hospital em estado grave depois de participar de recepção de um curso de engenharia

Tradição: início das aulas leva estudantes a se reunir no Centro. Ontem, a Praça Saturnino de Brito estava lotada (Foto Juliano Mendes/A Razão)

Tradição: início das aulas leva estudantes a se reunir no Centro. Ontem, a Praça Saturnino de Brito estava lotada (Foto Juliano Mendes/A Razão)

A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) pretende ouvir hoje os envolvidos em um trote violento que deixou um calouro de 18 anos em coma alcoólico. O novato de Engenharia Mecânica teria participado da atividade junto com veteranos do curso na tarde da última quarta-feira, no Parque Itaimbé. O jovem foi levado ao hospital em estado considerado grave pela equipe médica que o atendeu.

As condições do estudante ao dar entrada no Pronto-Atendimento da Unimed, às 19h15 de quarta-feira, impressionaram o médico Fernando Souza, que o atendeu. Segundo o médico, o quadro era grave devido ao somatório de sintomas do paciente. Foi o próprio pai do estudante que o levou ao hospital.

O jovem estava desacordado, com a temperatura do corpo muito baixa (hipotermia) e com queda de pressão arterial. A hipotermia se deu pelo fato de ele estar usando pouca roupa. Além disso, estava sujo de querosene ou algum lubrificante.

Souza conta que o rapaz recebeu o tratamento adequado para esse tipo de situação, como soro aquecido para aumentar a temperatura corporal, glicose e medicamento para fazer a pressão arterial se estabilizar. O médico destaca que, como era um paciente jovem, a resposta do organismo foi mais rápida. Contudo, Souza diz que uma pessoa nessas condições pode vomitar e aspirar o alimento, tornando o quadro bem mais grave. O estudante ficou toda a madrugada em observação e só retornou para casa no começo da manhã de ontem.

O médico Fernando Souza alerta para o risco deste tipo de trote violento, que poderá resultar em morte. A prática, inclusive, é proibida tanto em locais públicos como na própria UFSM. Uma lei municipal, de 2002, proíbe trotes de universitários que causem prejuízos morais, danos físicos ou que atentem contra o patrimônio público ou a liberdade das pessoas.

Contra a violência – Na UFSM, esse tipo de trote também não é permitido. Casos como o do estudante de engenharia podem resultar, inclusive, na expulsão dos alunos veteranos que promoveram a recepção violenta. O próprio Centro de Tecnologia (CT), que abrange o curso de Engenharia Mecânica, realiza esta semana uma recepção aos novos alunos que envolve apenas atividades sem risco, como música e gincana. As aulas começaram na última segunda-feira.

O diretor do Centro de Tecnologia, professor Luciano Schuch, pretende ouvir hoje os envolvidos. Ele informa que o fato de a UFSM proibir os trotes em suas dependências fez com que um grupo de jovens fosse para o Centro, na quarta-feira, para fazer brincadeiras com os novatos. Outros cursos também têm promovido trotes, inclusive no Itaimbé, com brincadeiras humilhantes e bebida alcoólica.

O papel da UFSM será identificar se o rapaz foi forçado a ir ao Parque Itaimbé e a ingerir bebida alcoólica. Nesse caso, poderá ser aberta uma comissão de investigação para apurar as responsabilidades. Em princípio, isso não teria acontecido. Ontem, um familiar do rapaz disse que ele participou por vontade própria e não teria sido forçado a beber. “Se o calouro foi para o trote por vontade própria, foge de nossa alçada”, explica Schuch.

Comentários estão fechados.