De olho na terra e no espaço

Portal Bei, 26/09/2014, Geral, Online.

 

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Base de monitoramento do ozônio no Inpe de São Martinho de Serra é obsoleta e será modernizada (Foto Reprodução/A Razão)

Marcos Fonseca

As pesquisas científicas sobre o clima na Terra e no espaço devem ganhar uma importante contribuição a partir de Santa Maria. Convênios do governo brasileiro com organizações dos Estados Unidos e da China preveem a modernização e a implantação de novos equipamentos na unidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) do município. Os acordos internacionais devem alavancar os estudos do clima por parte do curso de Meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Atualmente, há dois investimentos em andamento. Um deles reforçará o monitoramento da camada de ozônio, a membrana da atmosfera que protege a Terra dos poderosos raios ultravioletas do sol – aqueles que podem provocar câncer de pele. O outro dará maiores condições às pesquisas do clima espacial, permitindo entender fenômenos que causam interferência nas telecomunicações por satélite, por exemplo. O centro do Rio Grande do Sul fica exatamente num local onde existe uma falha na camada de ozônio, expondo à população aos riscos dos raios solares. Em 2010, o buraco da camada, que se forma na Antártica, atingiu o Rio Grande do Sul. A região de Santa Maria foi a mais afetada. O fenômeno intriga os pesquisadores e é alvo de inúmeros estudos.

O monitoramento dessa camada é feita por diferentes institutos de pesquisa no mundo, inclusive o Inpe. Porém, o Centro Espacial Sul de Pesquisas Espaciais (CRS), nome dado à base do instituto espacial de Santa Maria, interrompeu as pesquisas em 2002 porque os equipamentos estavam obsoletos. Uma parceria com a agência espacial norte-americana, a Nasa, prevê que Santa Maria vire um centro de referência para a medição do ozônio.

Na semana passada, o curso de Meteorologia da UFSM e o Inpe receberam a visita da norte-americana Anne Thompson, responsável pela Shadoz, a rede global da Nasa que monitora o gás ozônio na atmosfera. O objetivo foi tratar da parceria para a implantação de equipamentos no município. No Brasil, a única estação que mede e envia dados para a Shadoz fica em Natal (RN).

Retomada – Ainda este ano, o novo sistema de sondagens do ozônio será instalado no Observatório Espacial do Sul, em São Martinho da Serra, local onde o Inpe e a UFSM mantêm dezenas de equipamentos para monitoramento da Terra e do espaço. Segundo a professora do curso de Meteorologia Damaris Kirsch Pinheiro, os equipamentos atuais são obsoletos, e o novo sistema permitirá reiniciar as sondagens de ozônio, que foram interrompidas em 2002.

A parceria do Inpe com a Nasa já existe há alguns anos e, em 2015, será estendida à UFSM. Segundo Damaris, há previsão, inclusive, de intercâmbio com a Nasa para estudantes e técnicos. “Para a sociedade gaúcha, principalmente, é importante porque estamos em uma região de muitas influências do buraco de ozônio antártico”, explica. Segundo a docente, a radiação ultravioleta afeta tanto a população como as plantações. A intenção, quando o monitoramento for retomado, é manter um sistema de alerta para informar a população sobre os índices de UV e orientar sobre como se proteger.

O reitor da UFSM, Paulo Burmann, diz ser importante os investimentos de novos equipamentos no Inpe para a qualificação do convênio de pesquisas que a universidade mantém com o instituto. “Todos ganham nesse processo, os estudantes, os professores e a comunidade”, afirma.

Santa-mariense representa o Brasil em órgão que estuda clima espacial

O santa-mariense Clezio Marcos De Nardin, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foi eleito vice-diretor do International Space Environment Service (ISES), órgão que congrega centros de alerta regionais para clima espacial existentes em várias regiões do planeta. É a primeira vez que um brasileiro faz parte da diretoria do ISES.

Pesquisador da Divisão de Aeronomia da Coordenação de Ciências Espaciais e Atmosféricas do Inpe, De Nardin atualmente gerencia o Programa de Estudo e Monitoramento Brasileiro do Clima Espacial (Embrace) do Instituto. O Embrace/Inpe é o centro de pesquisa e desenvolvimento responsável pelo monitoramento e previsão do Clima Espacial no Brasil.

“Esta escolha pela comunidade internacional reflete o amadurecimento de nosso país nesta área”, disse o pesquisador sobre a eleição no ISES. O instituto é comandado por Terry Onsager, dos Estados Unidos. A posse da nova diretoria do ISES ocorreu em agosto em Moscou, Rússia.

De Nardin é engenheiro eletricista formado em 1996 pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e de doutor em Geofísica Espacial em 2003 pelo Instituto Nacional de Pesquisas (Inpe) de São José dos Campos (SP), onde trabalha.

Como o clima espacial nos afeta?

Não são apenas as variações do clima da Terra que nos afetam diariamente. No espaço, há também tempestades que podem provocar transtornos. As explosões solares geram ventos e radiação que prejudicam as telecomunicações via satélite. Dependendo do caso, o serviço do caixa eletrônico do banco pode não funcionar, o sinal da TV da sala pode ser cortado, o GPS do carro sinalizar a rota errada, entre outros exemplos.

“É difícil conceber a vida moderna sem satélite, energia elétrica”, afirma o presidente do Centro Espacial Sul de Pesquisas Espaciais (CRS), Adriano Petry. Ele destaca a dificuldade de explicar para as pessoas a importância dos estudos do clima espacial, por ser algo abstrato e distante. Mas ressalta que as tempestades lá no espaço afetam, sim, os equipamentos que usamos na Terra. “Não fazemos pesquisas pelas pesquisas apenas. Fazemos para agregar valor a produtos e facilitar a vida das pessoas”, diz o presidente do CRS.

Apagão – Petry lembra a tempestade solar de março de 1989 que causou um apagão em Quebec, no Canadá, ao danificar transformadores. O fenômeno foi tão violento que a cidade de Montreal chegou a ficar nove horas sem luz. O apoio de Santa Maria para a compreensão das chamadas tempestades geomagnéticas será dado em parceira com a Academia Chinesa de Ciências (CAS) do Centro Nacional Chinês para Ciência Espacial (NSSC) e o Inpe. A ideia é construir um laboratório de pesquisa do clima espacial no Brasil. Os equipamentos devem ser instalados na unidade de São Martinho da Serra e em Santa Maria.

A previsão é lançar edital de licitação para a construção de novos laboratórios em 2015. Os prédios, que devem ser erguidos junto à sede do CRS localizada no campus da UFSM, irão receber parte dos equipamentos. Outros serão instalados em São Martinho da Serra. A base de observação do CRS fica em um local do município vizinho a Santa Maria onde as interferências das redes de comunicação e de energia elétrica são menores. Isso evita que os sensíveis aparelhos de monitoramento do espaço sejam afetados.

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