Educação monoparental ou matriarcal? – por *ELOISA ANTUNES MACIEL

Diário de Santa Maria, 30/05/2015, Opinião, Pág. 4.

Devido à minha formação – e à vivência no plano educacional ao longo de quatro décadas –, devo confessar minha perplexidade ante a manifestações (veiculadas por setores da mídia) segundo as quais, geralmente, jovens cometem desatinos por falta da permanência da figura materna no lar – ou pelo fato de a mãe haver falhado em sua (exclusiva?) ação educativa. Céus!

Discordo, em princípio, dessa inusitada afirmativa – e não apenas pela minha formação/atuação no plano educativo pela via institucional. Minha não conformidade depreende-se também de conhecimentos sociológicos dos quais sou detentora, havendo obtido registro nessa disciplina e abdicado do mesmo devido à observação de incoerências que, desde a época de minha primeira titulação, estariam a constituir obstáculos à sustentação de minhas convicções embasadas nos conceitos psicossociológicos, haja vista uma concepção quase que generalizada, segundo a qual cabe exclusivamente à família e, em particular, à mãe, a tarefa complexa e abrangente de educar. Tenho discordado de colegas que dizem apoiar essa tese, em que pesem a suas responsabilidades como educadoras, ainda que aposentadas.

E minha perplexidade se acentuou ao ler/ouvir depoimentos acusatórios, em que um determinado agente legal acusa a mãe de um suspeito de grave infração usando a seguinte afirmativa: “A senhora não soube educar seu filho!”. O senhor pai estava presente na cena e, ao que parece, denotava concordar com o acusador. Palmas para ele. Pois a maioria das mães, embora sobrecarregada de tarefas que somente a elas são atribuídas, ainda tende a suportar chacotas como o incentivo de determinados pais aos chamados “filhos homens”, usando expressões como “coisa de mulherzinha”, entre outros ainda mais pejorativos e generalizados por meio de estereótipos de toda ordem.

Não caberia aos pais, e também a parentes mais próximos, o cumprimento dessa tarefa básica, mas não exclusiva, da família? Lamentável, se não deplorável, mesmo, uma vez que integrantes dos denominados “bondes” têm, aproveitando-se dessa brecha deixada por quem de direito, e obrigação, como a família, a escola e outros agentes educativos. E haja omissão e acusações injustas.

Esse quadro precisa ser urgentemente alterado, sob pena de naufragarmos todos nesse imenso mar de irresponsabilidade frente à delinquência juvenil e suas nefastas consequências.

*Professora aposentada da UFSM

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