Os desafios da indústria para gerar empregos

Jornal A Razão, 22/09/2016, Economia, Online e Impresso

Empresas já estão recontratando, mas legislação ainda é o principal entrave

Empresários de Santa Maria apontam que o pior momento já passou e que chegou a hora de crescer. Mas que é preciso atualizar e flexibilizar a legislação (fotos Gabriel Haesbaert / A RAZÃO)

Empresários de Santa Maria apontam que o pior momento já passou e que chegou a hora de crescer. Mas que é preciso atualizar e flexibilizar a legislação (fotos Gabriel Haesbaert / A RAZÃO)

O momento é de retomada. As incertezas políticas que dominavam o cenário até pouco tempo agora dão espaço a uma nova perspectiva. Os empresários estão mais confiantes, segundo uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Então, o que falta para as indústrias de Santa Maria e região crescerem e gerarem mais empregos?

Vários são os fatores que entravam o desenvolvimento industrial na Região Centro do Rio Grande do Sul. Um deles é a legislação trabalhista que, segundo os empresários, está desatualizada e dificulta as relações de trabalho. “É preciso flexibilizar. A legislação atual vai contra o próprio trabalhador, uma vez que não permite uma negociação direta entre empregador e empregado, entre empresas e sindicatos”, destaca o empresário Leonardo Veiga, que desde agosto passado, retomou as contratações. “O mercado está reagindo e estamos remontando nossa equipe. É um processo lento, mas é uma reação”, comenta.

Para o empresário Odilo Marion, as exigências burocráticas e legislativas também são os principais empecilhos para desenvolver uma indústria. “As exigências são cada vez maiores, em todas as áreas, e aí entram questões ambientais, trabalhistas, de prevenção e de segurança no trabalho. Os custos aumentam e perdemos poder de competitividade”, ressalta.

Outro fator que dificulta o crescimento industrial é a infraestrutura da região. Com um sistema viário precário, custos com frete e manutenção de frotas impactam no preço final. Segundo o presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Santa Maria (Cacism), Rodrigo Decimo, os impostos pagos pelas empresas e pela população não retornam em forma de serviços ou melhorias. “Hoje é preciso, além de pagar impostos, investir em serviços privados, como segurança, saúde, educação e, no caso das estradas, nos pedágios. Não há retorno por parte dos governos”, ressalta o dirigente.

Em debate

Um dos pontos mais criticados pelos empresários, e até por trabalhadores, é a atual legislação trabalhista, considerada ultrapassada e que não oferece flexibilidade às relações de trabalho. Pois nessa quarta-feira (21), o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, informou que o governo só deve enviar a proposta de reforma na legislação trabalhista ao Congresso Nacional no segundo semestre do ano que vem.

O ministro argumenta que o governo não quer elaborar o texto de forma apressada, pois antes de apresentar qualquer sugestão a respeito, pretende debater a matéria com a sociedade, incluindo os trabalhadores e os empresários. O ministro reafirmou que não existe intenção de mexer em direitos adquiridos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), tais como férias, 13º salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e vales-transporte e refeição, nem com o repouso semanal remunerado. Segundo Nogueira, a proposta que o governo estuda está centrada em três eixos: segurança jurídica; criação de oportunidades de ocupação com renda e consolidação dos direitos.

Parcerias e preparo para crescer

Depois de um longo período de quedas na produção e aumento do desemprego, as empresas agora começam a retomar a confiança e se preparam para voltar a investir. Se por um lado, as exigências legais dificultam algumas ações, por outro não falta vontade de continuar empreendendo. Mesmo com um tom

Desenvolver a cultura empreendedora é uma das ações para Santa Maria

mais otimista, o empresário Odilo Marion destaca que essa retomada não ocorrerá de uma hora para outra. “É um processo lento e que depende ainda de algumas decisões que nossos governantes irão tomar”, explica.

O economista e coordenador do curso de Economia do Centro Universitário Franciscano (Unifra), Mateus Frozza, destaca que é preciso reforçar o trabalho em conjunto, entre os eixos universidade, empresas, poder público e entidades empresarias, de forma a desenvolver uma cultura empreendedora. “As instituições de ensino ‘pecam’ pois oferecem uma visão pouco abrangente. As disciplinas de planejamento financeiro, estratégico e empreendedorismo teriam que ser comuns a todos os cursos de graduação, pois desenvolver uma ‘mentalidade’ empreendedora requer tempo e preparo”, justifica.

Entre as ações que promovam esta aproximação destacam-se os Arranjos Produtivos Locais (APLs), as incubadoras tecnologias (da Universidade Federal de Santa Maria e da Unifra), o Santa Maria Tecnoparque, a Agência de Inovação e Transferência de Tecnologia da UFSM (Agittec) e a Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (Adesm).

De um modo geral, empresários de indústrias já consolidadas e novos empreendedores acreditam que a tendência é positiva e que, mesmo a passos lentos, a produção voltará a crescer. “O empresário quer produzir, o trabalhador quer produzir, basta que o governo nos deixe trabalhar”, finalizam os empreendedores.

 

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