Alunos da UFSM acampam em solidariedade aos moradores que terão de deixar suas casas

Diário de Santa Maria, 17/03/2017

Alunos da UFSM acampam em solidariedade aos moradores que terão de deixar suas casas Lucas Amorelli/New Co DSM

O pedreiro Edi Lencina, 55 anos, retirava o resto dos materiais que restavam da casaFoto: Lucas Amorelli / New Co DSM

A cinco dias do prazo judicial que determina a reintegração de posse da região conhecida como Vila Olaria, da UFSM, um grupo de estudantes e demais voluntários promoveram ações de solidariedade às 31 famílias do local.

Há duas semanas, moradores têm deixado a área gradativamente. Contudo, muitos alegam que, ao voltarem para buscar eletrodomésticos e materiais que podem ser reaproveitados como portas, janelas e telhas, encontraram os imóveis patrolados.

Esse foi  um dos motivos que levaram os voluntários a montarem uma barraca na entrada da vila, na manhã desta quinta-feira. Segundo eles, o objetivo é impedir a derrubada das casas de forma truculenta e anterior ao dia 21 deste mês.

O local também funciona como um centro de arrecadação onde podem ser recebidos alimentos, roupas e qualquer quantia em dinheiro para custear o transporte e o frete dos pertences dos moradores.

No Facebook, a página Solidariedade aos Moradores da Olaria, é outro meio de contato para doações. Até ontem, cerca de R$ 800 tinham sido doados.

Alunos vinculados ao projeto de extensão Gritos do Silêncio, vinculado ao curso de Comunicação Social da UFSM, elaboraram o material: Sobre Tijolos e Vidas. A iniciativa que propõem chamar a atenção para a realidade famílias, traz histórias de alguns moradores da olaria.

As ações começaram na última semana com reuniões e atos em que foram ouvidas as demandas das famílias.  De acordo com um dos apoiadores do grupo, Jean Souza, 23 anos, a ideia é acompanhar o processo de retirada até que a última família saia, apoiar na ressocialização dos moradores e, sobretudo, demonstrar um ato de repúdio à UFSM:

–Queremos colocar pressão para que não derrubem mais casas antes do prazo (dia 21). E mais que isso, é um desrespeito, pois o processo (de retirada) não teve nenhuma especificação, acompanhamento social ou psicológico aos moradores, coisa que a UFSM teria. Não é alguém que ocupou ontem, é uma história de 50 anos, de moradores que cresceram junto com a instituição.

O fato se agrava, segundo o grupo, pois muitas famílias têm idosos, crianças ou pessoas com algum tipo de doença que, inclusive, dependem de atendimento junto ao Husm.

EM MEIO AOS ESCOMBROS
Na tarde de ontem, o pedreiro Edi Lencina, 55 anos, retirava o resto das tábuas que restavam da casa de uma das filhas que, assim como ele, também morava próximo à olaria. Com a fala interrompida constantemente pelo choro, o pedreiro contou que havia alugado uma casa e temia estruturar a vida de novo:

– Não é fácil. Mais de 30 anos aqui, quando vou conseguir fazer uma casa de novo? Com o fica o transporte, as pessoas que a gente conhecia. Minha família depende do hospital, que é do lado (Husm). Teve gente que não conseguiu nem tirar tudo de casa que patrolaram.Arrumaram lá na Nova Santa Marta, mas não tem nada, só um terreno.

Conforme a prefeitura de Santa Maria, a gestão passada cedeu lotes para as 31 famílias no Bairro Nova Santa Marta. Segundo Wagner Bitencourt, superintendente de Habitação, a questão de água e saneamento para o local já foi acertado com a Corsan.

Contudo, há 11 dias, como publicado na matéria do Diário em 6 de março, a rede elétrica, viabilizada por meio da RGE Sul, não teve avanços. Conforme Bitencourt, o transporte dos moradores é responsabilidade da UFSM e não da prefeitura.

Na última segunda, no site da UFSM, foi publicada uma matéria sobre o processo de usucapião que determinou a reintegração de posse da região da olaria informando que “A UFSM, dentro dos limites que a legalidade impõe, buscou intermediação com a Prefeitura Municipal de Santa Maria, e juntos equacionaram o problema social e humanitário envolvido, tanto que a Pró-Reitoria de Infraestrutura (Proinfra) já demarcou 31 lotes na área da Nova Santa Marta. A mesma decisão estabelece que aos réus que já desocuparam o local, fica autorizada a ligação provisória de água e luz nos lotes fornecidos pelo município.”

No fim da tarde de quinta-feira, o Diário tentou contato o reitor da instituição Paulo Burmann, mas a mensagem e as quatro ligações para o telefone celular não foram atendidas. O mesmo contato (mensagem e quatro ligações para o telefone celular) com Lauro  Bastos, advogado do moradores da olaria também não obteve retorno. No escritório onde Bastos trabalha foi informado que ele não estava na cidade.

UMA DÉCADA DE IMPASSE
Em 2003 a família de Algemiro Alves Pereira, 84 anos, morador desde 1967, ingressou na Justiça com uma ação de usucapião da área. No entanto, em 2014, o judiciário reconheceu o local como área federal e de posse da União. Em 2015, a UFSM entrou com o pedido de reintegração de posse. A Justiça decidiu, em última instância, que os moradores teriam de deixar o local.

Em julho do ano passado, um outro problema pegou de surpresa as famílias da região. Após um pedido do Mistério Público Federal (MPF) , instaurou-se procedimento junto à Polícia Federal de furto de energia elétrica. À época, a procuradoria da UFSM justificou que tentou acordos extrajudiciais para que a questão fosse resolvida e a energia fosse paga pelos moradores. Por cerca de um mês, a região ficou às escuras.

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