A partir de 1º de outubro, Censo Agropecuário visitará agricultores

Diário de Santa Maria, Online. 03/08/2017.

A partir de 1º de outubro, Censo Agropecuário visitará agricultores  Claudio Vaz/Agencia RBS

Foto: Claudio Vaz / Agencia RBS

O gerente nacional do Censo Agropecuário do IBGE, Antônio Florido, dará uma palestra nesta terça-feira, na UFSM, durante o 55º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober).

Ontem, ele conversou com o Diário sobre como será a pesquisa e a importância do censo, que vai de 1º de outubro até o final de fevereiro de 2018 e visitará 5 milhões de estabelecimentos rurais no país. Os primeiros dados serão divulgados em maio de 2018, com conclusão em agosto de 2019.

Diário de Santa Maria – Como vai funcionar o censo? quem será visitado e que tipos de perguntas serão feitas?

Antônio Florido – Será o censo de todos os estabelecimentos agropecuários, que você conceitua como toda área ou todo terreno, independente de tamanho ou de situação onde se processa uma atividade agropecuária. Todo o recenseador vai receber uma área de trabalho, vai percorrer todos, tentando identificar se é um estabelecimento, se é um produtor ou se não produz. E vai ter uma data de referência, que é 30 de setembro de 2017. Levanta informações estruturais dessa data: qual a área do estabelecimento, como ela estava sendo usada em termos de lavoura, de pastagem, de matas, e efetivo de bovinos e todos os animais que tem, maquinaria, unidade de armazenagem.

Depois se tem todo o período de referência, que é de 12 meses para trás. A gente levanta o que produziu naquele período, que tipo de despesa teve para produzir, o que obteve de receita. Não é amostra, será em todos. Você pode ter uma propriedade com mais de um estabelecimento. Por exemplo: uma propriedade em que o dono arrendou para diferentes produtores, então você tem uma propriedade que pode dar origem a vários estabelecimentos. Se tem várias propriedades arrendadas a um único produtor, dá origem a um único estabelecimento.

Diário – Quando o produtor estiver, o que vai ser feito?

Florido – Se ele não estiver ou não tenha ninguém com condições de dar informações, daí o recenseador reporta aos responsáveis do IBGE, e nós vamos correr atrás para ver quem é o produtor. Se a partir de três meses da realização do censo, você não foi visitado, pode ser que seu município ou região ainda não tenha sido recenseado. Mas mais para o final da coleta, se não foi recenseado, vai ter um telefone para o produtor ligar ao IBGE e informar que não foi visitado.

Diário – Sobre a confiabilidade dos números, hoje se sabe que há sonegação e há gente que declara menos do que produz. Como o IBGE trabalha com isso, já que há produtor que poderá informar menos para não haver conflito com o que ele declarou ao imposto de renda?

Florido – É autodeclaração. Não vamos sair conferindo nem batendo os dados com nada. O censo é uma fotografia, tirada a cada 10 anos. Por exemplo: hoje está se avaliando política pública a partir da fotografia de 10 anos atrás. E a qualidade dessa fotografia vai depender da qualidade do que foi respondido ao IBGE. Se a qualidade não for boa, pode prejudicar uma determinada localidade, se todos os produtores não informarem a corretamente ao IBGE. A análise daqueles dados para aquela região pode não gerar uma política pública que seria necessária o local.

Diário – O que é planejado a partir dos dados do censo?

Florido – Tudo o que tem a ver com o meio rural e agrícola é planejado a partir do censo. Todo esse pessoal aqui (no congresso Sober) está ávido e analisando dados de 10 anos atrás. Então, grande parte do que é pesquisado pode virar uma política pública, como foi a lei da agricultura familiar e a compra de produtos dela para as escolas. Ela saiu com base em estudos recorrentes de três anos, até que saiu a lei, o Pronaf e vários outras leis em benefício do produtor familiar e dos demais.

Diário – Nos últimos 50 anos, houve grande êxodo rural. Que momento a gente vive hoje? O senhor tem pista do que o novo censo vai mostrar?

Florido – Essa coisa do êxodo, muita gente diz que está mudando do rural para o urbano. Eu tenho falado que você tem um êxodo dos que não foram. Por que isso? Porque há 10 anos você tinha uma situação em termos de áreas urbanas, definidas por lei. Se determinada pessoa morava em um ambiente rural, ela não se mudou daquele local, aí a lei municipal amplia o perímetro urbano e aquela residência passa a ser num perímetro urbano. Ela nunca mudou do local. Antes de fazer uma análise de êxodo, tem de analisar o que mudou em termos de criação de novos perímetros urbanos. Quantas pessoas viviam antes naquele local e quantas estão vivendo hoje naquele mesmo lugar? Então, você tem contado aí o êxodo dos que não foram, porque não saíram de lugar nenhum e só o perímetro urbano é que avançou.

Diário – As principais queixas dos produtores são as estradas ruins e a distância às escolas. Qual o impacto disso na qualidade de vida e no êxodo?

Florido – Hoje a discussão é a sucessão rural. Se você pega o censo do Rio Grande do Sul de 2006, você vê que já tinha grande quantidade de produtores com certa idade avançada e, geralmente, a média era de três pessoas: dois idosos e outra pessoa, um filho ou parente. Agora se passaram 11 anos. O que aconteceu? Eles pararam de ter atividade, vivem só com aposentadoria ou Bolsa Família? A atividade acabou porque não têm mais força laboral? Porque os filhos saíram, foram buscar outras oportunidades? E o censo vai mostrar isso, como está a situação hoje. Se o produtor não nos receber e não nos der a informação correta, você não consegue mostrar essa nova realidade e ele não vai aparecer na foto.

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