Vítimas da ditadura militar darão seu testemunho em evento na UFSM

Diário de Santa Maria, 16/08/17, Geral e Polícia, Online. 

Ciclo é promovido pela Comissão de Anistia e ocorre na quinta em Santa Maria

Vítimas da ditadura militar darão seu testemunho em evento na UFSM Lucas Amorelli/New Co DSM

Dartagnan Agostini foi preso duas vezes durante a ditadura militar, por ser integrante da UNE e da Ala Vermelha/PCdoBFoto: Lucas Amorelli / New Co DSM

ditadura militar no Brasil acabou há 32 anos, mas quem viveu essa realidade e foi perseguido político ainda traz as marcas do período, seja na pele ou na memória. Para colher os testemunhos de pessoas presas ou afetadas de qualquer forma pelo regime militar, a Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, criou o projeto Clínicas do Testemunho Rio Grande do Sul.

O projeto, coordenado pelo Instituto Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Instituto/Appoa), é levado a diversas cidades do Estado, com palestras e testemunhos de vítimas dos “anos de chumbo”.

Nesta quinta-feira, 17 de agosto, Santa Maria recebe o projeto, às 17h30min, no auditório do Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH), no prédio da Antiga Reitoria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Centro.

Com o nome “A Ditadura em Santa Maria: Testemunhos da Repressão e da Resistência”, o evento é aberto ao público e conta com a participação de presos políticos ou familiares de perseguidos políticos. O professor Dartagnan Agostini, 74 anos, é uma das pessoas que vão apresentar seu relato. Ele contou ao Diário que foi preso duas vezes e relembrou as situações que viveu durante o período ditatorial.

MEMÓRIAS

primeira prisão de Agostini ocorreu em Belo Horizonte, em 1966, quando participou de um Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Nesta ocasião, ele ficou recluso por quatro dias.

A segunda foi em São Paulo, em 1971, quando foi levado para o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), onde ficou por dois meses. Depois, foi transferido o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de Porto Alegre, local em que permaneceu recluso por mais três meses.

Agostini vai contar, em palestra, suas vivências do período ditatorial, com foco na tortura física e psicológica da épocaFoto: Lucas Amorelli / New Co DSM

O professor diz que sofreu pequenas torturas físicas, como socos e choques elétricos, mas comenta que a tortura psicológica era a pior parte.

– Eles ameaçavam, diziam que iam fazer coisas horríveis comigo, ou minha família. Foi perturbador – lembra Agostini.

Ele diz que na época não tinha filhos, mas se preocupava com o bem estar de amigos e parentes. O professor participou de grupos considerados subversivos pelos militares, como o movimento estudantil e, mais tarde, foi integrante da Ala Vermelha/PCdoB. A participação dos grupos foi o motivo das prisões.

Entretanto, Agostini diz que não se arrepender do que viveu, nem de ter sido preso, pois acredita que lutou pelos seus ideais, em busca “de um Brasil democrático e melhor”.

Além dele, também apresentam seus relatos Geisa Batista Obetini e Anita Leocádia Melo Cardosofilhas de Balthasar Melo, líder ferroviário e preso político em Santa Maria no período da ditadura. Os mediadores da mesa serão o representante do Instituto/Appoa, Paulo Gleich, e o professor Diomar Konrad, do departamento de História da UFSM.

O PROJETO

Criado pela Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, o “Clínicas do Testemunho” visa acolher os testemunhos de pessoas afetadas pela ditadura militar no Brasil, discutindo os efeitos psíquicos, sociais e políticos da violência de Estado. E também oferecer acolhida a pessoas afetadas pelo regime militar, por meio de dispositivos clínicos, como escuta individual e grupos terapêuticos.

Tem como objetivo capacitar profissionais que atuam junto a pessoas e grupos afetados pela ditadura e pela violência de Estado atual. O projeto também visa produzir conhecimento, através de publicações e outros meios, colaborando com instituições que se ocupam dessas questões na América Latina e no mundo.

Em seu primeiro biênio (2013-2015), foi sustentado pela Sigmund Freud Associação Psicanalítica (SIG), de Porto Alegre. Agora, na segunda edição, passa a ser coordenado pelo Instituto/Appoa, da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, contando, ainda, com apoio da SIG.

O Clínicas do Testemunho insiste na potência clínico/política dos depoimentos para quebrar o silêncio produzido após os “anos de chumbo” e resgatar a dimensão coletiva das vivências de terror e resistência.

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