Por um novo perfil de professor

Diário de Santa Maria, 25/10/2013, Opinião, p. 4

Há seis anos, redigi uma carta para a sessão “carta do leitor” do jornal Diário de Santa Maria. Descrevi uma cena insólita que presenciei na Rua do Acampamento: sentado na calçada, um indiozinho aparentando uns dois ou três anos pedia esmolas, e bem à frente dele, uma aglomeração de pessoas tentava socorrer um filhote de cão que estava perdido.

Na época, a cena descrita teve um enorme impacto, e o jornalista Marcelo Canellas fez uma crônica inspirada na carta que foi publicada no mesmo jornal. Foram vários dias e meses de debates sobre a presença dos índios na cidade. Apesar dos debates calorosos, os índios ainda continuam na nossa cidade em condições muito precárias de sobrevivência. Eles representam um fragmento de um problema social mais amplo. Esta semana, Marcelo lança seu livro de crônicas: Províncias Crônicas da Alma Interiorana e, para minha surpresa, a crônica que ele redigiu inspirada na carta que escrevi para o jornal há seis anos está publicada no livro.

Essa agradável surpresa me fez refletir sobre a importância e a responsabilidade do que se escreve. Eu poderia ter presenciado a cena e ter comentado com as pessoas, ter manifestado para elas verbalmente minha indignação, mas tive vontade de escrever. Fez-me perceber que as palavras, quando escritas, detêm um poder muito maior, pois, quando escrevemos, parte do que somos é compartilhada com outras que estão na mesma sintonia.

Quando escrevi sobre a presença dos índios na cidade, causei certo “espanto” cumprindo meu papel de educadora. Rubem Alves, escritor e educador, em uma de suas obras propõe um novo tipo de professor, um “professor de espantos”, que provoque a curiosidade, a inteligência, a alegria de pensar.

Nesse sentido, como nos aponta o escritor espanhol Rafael Yus, a educação precisa mergulhar na realidade e fundamentar toda a sua ação na realidade cotidiana, adotar uma atitude em favor do desenvolvimento de valores éticos. Uma educação engajada em projetos de transformação social que promovam projetos de vida mais dignos.

Nós, professores, precisamos estar conscientes da conexão existente entre todas as formas de vida. A separação é uma ilusão, estamos conectados uns com os outros em um processo dinâmico. Dentro dessa perspectiva ampla, as barreiras se dissolvem para percebermos nossa unidade com a vida.

 Professora de história e sociologia da rede pública estadual/municipal e estudante de Ciências Sociais na UFSM

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