Afetividade

Uma das dificuldades no estudo da afetividade é a definição do que realmente significa o termo. Na linguagem geral, afeto relaciona-se com sentimentos de ternura, carinho e simpatia. Nas mais variadas literaturas, afetividade está relacionada aos mais diversos termos: emoção, estados de humor, motivação, sentimento, paixão, atenção, personalidade, temperamento e outros tantos. A maior parte das vezes, confundida com emoção. O número de definições científicas sobre o termo emoção é grande (até 1981 havia mais de cem definições listadas por Kleinginna e Kleinginna[1]), já que a afetividade é estudada em áreas de conhecimento diversas e não interdisciplinarmente.

Dentre os diversos autores que trabalharam sobre o tema, combinando aspectos da psicologia com a educação, destaca-se Henri Wallon, educador e médico francês, que viveu de 1879 a 1962. Para Wallon, a emoção estaria relacionada ao componente biológico do comportamento humano, referindo-se a uma reação de ordem física. Já a afetividade teria uma significação mais ampla, na qual se inserem várias manifestações - das basicamente orgânicas (primeiras expressões de sofrimento e de prazer que a criança experimenta, como a fome ou a saciedade) às manifestações relacionadas ao social (sentimento, paixão, emoção, humor, etc) [2].

Assim, a afetividade poder ser conceituada como todo o domínio das emoções, dos sentimentos das emoções, das experiências sensíveis e, principalmente, da capacidade de entrar em contato com sensações, referindo-se às vivências dos indivíduos e às formas de expressão mais complexas e essencialmente humanas [3].

Criador da Epistemologia Genética, Piaget (1896-1980) reconheceu que a afetividade é o agente motivador da atividade cognitiva. Para Piaget, a afetividade e a razão constituiriam termos complementares: “a afetividade seria a energia, o que move a ação, enquanto a razão seria o que possibilitaria ao sujeito identificar desejos, sentimentos variados, e obter êxito nas ações” [4] [5].

Para Vygotsky (1896-1934), o desenvolvimento pessoal seria operado em dois níveis: o do desenvolvimento real ou efetivo referente às conquistas realizadas e o do desenvolvimento potencial ou proximal relacionado às capacidades a serem construídas.  Vygotsky é considerado, muitas vezes, cognitivista por ter se preocupado principalmente com os aspectos do funcionamento do pensamento. Entretanto, questionava o dualismo entre as dimensões afetivas e cognitivas quando menciona que a psicologia tradicional peca em separar os aspectos intelectuais dos afetivos-volitivos [6]. Vygotsky afirmava que “os processos pelos quais o afeto e o intelecto se desenvolvem estão inteiramente enraizados em suas inter-relações e influências mútuas” [6, p.76]. 

As contribuições de Wallon, Piaget e Vygotsky estão sendo retomadas pelos educadores [2] [7] para entender a percepção intuitiva de pais e professores de que as experiências e os laços afetivos influenciam os processos de ensino-aprendizagem.

Na educação de abordagem construtivista, a preocupação com o a forma de ensinar passa a ser tão importante quanto o conteúdo a ser ensinado. Por isso, a intensificação das relações, os aspectos afetivos emocionais, a dinâmica das manifestações e as formas de comunicação passam a ser pressupostos para o processo de construção do conhecimento.

A afetividade também é concebida como o conhecimento construído através da vivência, não se restringindo ao contato físico, mas à interação que se estabelece entre as partes envolvidas, na qual todos os atos comunicativos, por demonstrarem comportamentos, intenções, crenças, valores, sentimentos e desejos, afetam as relações e, conseqüentemente, o processo de aprendizagem.

Perceber o sujeito como um ser intelectual e afetivo, que pensa e sente simultaneamente, e reconhecer a afetividade como parte integrante do processo de construção do conhecimento, implica um outro olhar sobre a prática pedagógica, não restringindo o processo ensino-aprendizagem apenas à dimensão cognitiva.


[1] SCHERER, K. What are emotions? And how can they be measured? In: Social Science Information 44 (4), 695–729. 2005.

[2] ALMEIDA, Ana Rita Silva. O que é Afetividade? Reflexões para um conceito. Disponível em: http://www.educacaoonline.pro.br/o_que_e_afetividade.asp. Acesso em 7 de junho 2007.

[3] BERCHT, M.. Em Direção a Agentes Pedagógicos com Dimensões Afetivas. Instituto de Informática. UFRGS. Tese de Doutorado. Dezembro, 2001.

[4] LA TAILLE, Y. Desenvolvimento do juízo moral e a afetividade na teoria de Jean Piaget. In: LA TAILLE, Y. (Org.) Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992. p. 47-73.

[5] LA TAILLE, Y. Desenvolvimento do juízo moral. In: Coleção Memória da Pedagogia: Jean Piaget. Ed. Ediouro: Rio de Janeiro; Ed. Segmento-Dueto: São Paulo;  1 (1), 2005. p.76-88.

[6] OLIVEIRA, M. K.. O problema da afetividade en Vygostsky. In: LA TAILLE, Y. (Org.) Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992. p. 75-84.

[7] ARANTES, V. A. Afetividade e Cognição: Rompendo a Dicotomia na educação; In VIDETUR, n. 23. Porto/Portugal, Mandruvá, 2003, (obtido em 4/5/2007 no endereço http://www.hottopos.com/videtur23/valeria.htm).

 

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