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Ela tocou improvisadamente a convite de Steve Vai numa apresentação da sua orquestra junto ao astro durante o Rock in Rio 2015. Na mesma orquestra se encontra outros três egressos que foram colegas dela: Francisco Azevedo (baixista), Fausto, (viola) e Márcio Bicacco (percussão). Iva teve várias experiências profissionais que a levaram a este momento, ela teve no Rio Grande do Sul, por exemplo, o projeto da Poços e Nuvens. Iva Nunes Giracca é natural de Santa Maria, bacharel em música em violino formada em 2001. Confira logo abaixo nossa entrevista com esta incrível instrumentista e musicista:

 

 

Como foi a escolha de cursar o bacharel em música?

Para mim foi uma escolha natural por que eu tocava violino a vida inteira, desde os 4 anos eu estudava música, então quando chegou a época do vestibular a maior habilidade que eu tinha era com a música mas mesmo assim ingressei no curso de desenho industrial e depois tranquei para cursar apenas música. Por que como dizia um amigo meu quando tu estás querendo ir contra a maré toda hora a vida está te mostrando algo então escolhi algo que era natural para mim desde cedo, a música.

Você teve apoio de tua família?

Tive uma família sempre muito musical. Minha família sempre escutava todos os tipos de música, música latina, brasileira, gaúcha, erudita... Meu pai tocava violão e minha mãe toca piano e harpa, a família quando pôde adquirir algo de maior valor comprou um piano para casa, e meus vizinhos alguns também eram músicos então fazíamos junção em nossa casa e tocávamos de tudo. Eu me orgulho de ter crescido nessa borbulha musical em família.

Como tu encaras a escolha de ser musicista hoje?

A escolha de ser musicista no Brasil é muito difícil porque você não tem nenhuma certeza que vai conseguir sobreviver da música, que você vai ser reconhecido, tem muito do negócio de tu estares disposto, tipo por que você vai a algum barzinho tocar quarta à noite sem cachê? É que ali tu podes ser reconhecido e visto por outros que podem te indicar a outros trabalhos.

Como foi a tua formação na universidade?

Sou muito grata pelos esforços dos meus professores por passarem tudo que podiam, pois na época a internet não era como hoje, youtube nem tinha, tinham que esperar material de outras universidades dos contatos dos professores.

Hoje tu és professora em Florianópolis?

Sim sou professora na escola Cameratta hoje e também dou aulas particulares, dei aula no extraordinário de música na Ufsm, sou instrumentista na orquestra.

Tu gostas de passar teus aprendizados?

Adoro, eu acho que é uma das grandes coisas que a gente tem e que eu levo particularmente como uma coisa importante que é o fato de tu conseguires difundir o que tu aprendeu. Por que tem muitas coisas técnicas que tu aprende em livros ou vídeos, mas tem muitos conhecimentos que não são coisas que tu simplesmente lê ou vê, mas sim através de conversas e trocas de experiências. 

O acesso além do mainstream musical para a população em geral te preocupa?

Sim, se eu tenho a preferência por rock e música erudita é por que tive acesso a outros tipos e pude escolher os meus gêneros musicais. Gostaria que todos pudessem ter acesso de forma mais natural a variados e a toda diversidade musical que o mundo carrega.

Como funciona a orquestra Cameratta?

A Cameratta é 100% particular, quero dizer ela não tem incentivo do governo apenas de patrocínios, é uma das poucas orquestras de Santa Catarina que está funcionando, e se tu parar pra pensar que depende todo mês de patrocínio é uma coisa louca.

Te preparaste para tocar o solo no violino com Steve?

Aquilo que eu toquei no Rock in Rio eu inventei na hora. Isso é uma coisa interessante por que eu adoro improvisar. Nalgum momento do ensaio ele me chamou e falou olha tu consegues tocar sozinha este trecho da música improvisando? Daí mesmo que não eu diria que sim, então tá vamos por uma repetição eu faço a primeira volta e tu a segunda ele me disse. Muitos músicos não ficariam confortáveis em tocar em cima, eles com certeza elaborariam uma nova melodia sobre a música, eu resolvi me jogar improvisar na hora, sentir a emoção do momento, e podia dar errado, mas deu certo muito certo.

Como tu te sentes em ser escolhida a fazer o solo com Steve Vai?

É... foram muitas emoções que se misturam é o reconhecimento do trabalho duma vida inteira, é o reconhecimento do jeito de eu ter me doado para a música, é a prova de que eu deva continuar a fazer isso, fazer música. Os médicos são importantes porque podem salvar ou matar uma pessoa com uma ação, mas eu com um violino não mato ninguém. Nós músicos temos muita responsabilidade, por que corremos o risco de fazer as pessoas muito tristes ou felizes. Por que nós temos aquela troca no palco com a platéia, tem gente de todo tipo, que viajou quilômetros para estar lá, para viver o momento, que fez economias para curtir e fazer valer a pena. Tínhamos em nossa frente 98 mil pessoas e eu com um cara extraordinário junto a mim. E a responsabilidade não para por aí, por que também aquele público que estava assistindo através da televisão e o registro histórico do momento para quem vai ver depois. Eu tenho todo dia (e em todo o lugar eu carrego) a responsabilidade de fazer o melhor com a música, com a minha profissão.

Steve Vai é considerado um dos maiores guitarristas, o que tu tem a dizer sobre isso?

Ele modificou o instrumento para que o instrumento fizesse o que passasse pela sua cabeça. Isso é uma coisa fantástica, pois olha só o violino é um instrumento que teve suas últimas modificações em 1600/1700 e até hoje é o mesmo instrumento e ninguém mais se atreveu a modificá-lo e esse cara pegou um instrumento novo na história e começou a desmontar trocar a captação e fazer novos buracos pela guitarra para poder mexer na “palanca” para que o instrumento possa chegar a ter o som que ele deseja só isso seria fantástico. Ele trata a música com um cuidado e um respeito com quem trabalha com ele que é muito difícil de ver, eu já tive a oportunidade de trabalhar com várias pessoas do ramo da música e com várias posturas, uma coisa que me chamou atenção é que ele não perde tempo afinando os instrumentos ele apenas chega para tocar. Quando a gente chegou estávamos tensos sobre como lidaríamos com as expectativas que ele teria conosco e foi bom por que fluiu perfeitamente.

Como foi o trabalho de toda orquestra no ensaio e durante a apresentação?

Foi uma correria no dia do ensaio, chegamos ao aeroporto e depois de duas horas dentro do avião fomos direto para o ensaio por que atrasou a nossa saída devido o aeroporto estar trancado, a previsão era chegarmos ao meio-dia e chegamos ás 5 da tarde, horário que estava previsto o ensaio. Ensaiamos durante 5 horas e depois fomos descansar no hotel, mas incrivelmente chegamos ao hotel com vigor antes de dormir por que foi tão boa a oportunidade que estivemos com ele. E a apresentação se deu perfeitamente, estávamos em sinergia até meu improviso funcionou.

Teve críticas em relação á junção dum guitarrista com uma orquestra no Rock in Rio. O que tu pensas a respeito?

Na verdade não vejo como uma crítica por que o evento abre espaço para artistas como Claúdia Leite, abre espaço para outro tipo de música como a eletrônica também então é um lugar democrático eu não vejo razão para não ter uma orquestra lá. Eu não vejo como crítica eu vejo como coisa nova, e toda coisa nova causa um pouco de incômodo. Até eu vejo positivamente a crítica por que no momento no qual a pessoa questionar por que tem uma orquestra significa que chamou a atenção d’alguma forma.

Steve Vai teve no início do ano em Florianópolis vocês tiveram contato antes do evento?

Sim. Eu tive apenas dois minutos com ele só para conhecê-lo, ele apenas tinha vindo para dar uma palestra para uma escola de música de guitarra e a orquestra foi assistir. O repertório da nossa apresentação em conjunto chegou um mês antes, a Cameratta se preparou durante um mês, e com o Steve dois dias antes da apresentação.

Quais são seus objetivos Iva daqui pra frente?

Eu na verdade estou no momento de gratidão, grata a tudo que me aconteceu até hoje na carreira e na vida. E durante a minha vida as coisas foram caindo no meu colo sabe, e para sobreviver de música tu ficas muito tempo envolvido e tu nem fica tendo muito tempo para ficar planejando coisas, eu quero continuar a lecionar para os meus alunos, eu tenho compromisso também com a Enarmonika uma banda que está começando também, tem o programa Rock Cameratta. Eu estou feliz e aberta para o que a vida me chamar. Tem uma coisa que eu digo para os meus alunos que se chamarem para tocar no aniversário da avó vai, se te chamarem pra tocar na escola vai, se for pra tocar com o tiozinho boêmio do barzinho da esquina vai, tu nunca sabe o que vai aprender e quem tu vai conhecer em cada momento, em cada oportunidade.

Vídeo do solo de violino de Iva. 

Entrevista de Denner Hartmann.