index história de vida escritas plásticas estudos não verbais contato

Roth em Pessoa


        João Luiz Roth possui um ponto em comum com o poeta Fernando Pessoa: ambos acreditam que a poesia superior é a poesia dramática. Esta exposição de pinturas e desenhos de Roth comemora os sessenta anos da morte/vida do poeta luso, mas é, antes de mais nada, uma aposta na dramatização do imaginário e do simbólico, enquanto herança cultural, como forma de reinventar a vida vivida.

O pintor parte de uma característica, de um cotidiano, de Pessoa, menos afeito a considerações teóricas, para tanger sua homenagem a esse (re)inventor da língua – o lado ocultista, esotérico, que margeia a figura do poeta. Com esse mote, Roth aventa o ¨gancho¨ das Cartas de Tarot para expressar uma certa intimidade com o poeta de tabacaria. surgem, então, as imagens das gravatas que aludem ao enforcado, os chapéus para designar o papa, o navio que pretende corresponder à carruagem. Todas essas imagens não pretendem analisar a letra pessoana, mas trazer o poeta e sua herança para um cotidiano mais próximo de todos nós. Nessa medida, o artista quer ver Pessoa pelo fado, pela cozinha, pelo cheiro, daquela Lisboa tão afeita às representações da etnia lusitana. Roth parece acreditar no primado pessoano da sensação – vigor máximo da criação poética, ponto nodal na invenção artística porquanto é a expressão mais alta que podemos traduzir o nosso sujeito frente o universo.

Diz o artista: ¨fazer pessoa não é homenagem a mim, mas aos meus amigos, à língua, à cultura, o que consegui na forma que me expresso¨. O que Roth pretende é des-inventar os dragões, é chamar seus companheiros para cavar um espaço, para inventar o novo. Por tudo isso retorna pessoa, não como o super-Camões, mas como o descobridor dos hermetismos de nossos símbolos, de nossos desenganos, de nossas certezas. Nesse sentido, Roth clama o diálogo com o poeta português pelo aroma do vinho, do absinto mais agudo: a construção do sentido novo.

A liberdade da criação fundamenta essa obsessão em Roth, pois ¨ o fundamental é des-inventar aquilo que inventamos equivocadamente, e partir para um novo desafio de não sendo nada tentar inventar o sonho do universo ¨. é pela apropriação dessas imagens poéticas de pessoa que o artista visita a figura feminina – Ophélia não é a trágica personagem shakesperiana e, tampouco, o Bébézinho do Nando. É a figura imperial da mulher portuguesa, é Inês de Castro, é Dona Maria, a louca, é Florbela Espanca a tangir o existencialismo da língua portuguesa. Nessa esteira é que, para o pintor, o poeta e sua obra são uma coisa só, se completam. Pessoa, então, é retratado guapo, formal, alcoolizado, enfermo. Qual o verdadeiro eu, qual o verdadeiro heterônimo? Cabe ao artista a lição do poeta, multiplicar-se para se sentir, como lembrança de uma invenção infinita, pois o mistério sabe-me a eu ser outro...¨

Esta exposição de Roth é, antes de tudo, o olhar do l’étourdit frente o referencial de cenas inconscientes – a estética clássica, a cultura e a história portuguesa, a herança judaico-cristã – que povoam a dimensão social do artista. Essa mudança, ou essa proposta de construção de novos sentidos, se dá pelo jogo de sedução que o sujeito impõe a este eu que mapeia a realidade, numa conjunção de mãos que fazem o balé das falas, dos gestos, da não-ação, que margeiam as ilusões e aparências, virtualizadas na fabulação do mundo. Essa é a tentativa de Roth – vislumbrar a intimidade dos artista criador, ser como pessoa, a de superar o espaço constrangedor da vida vivida e se dispor a perverter, pelo jogo dramático, pelo jogo dramático, o lúdico e o repressivo que compõem o mundo e o seu próprio sintoma.

Robson Pereira Gonçalves


Volta para a página Fernando Pessoa




Garcia Lorca  -   James Joyce  -   Fernando Pessoa  -   Freud  -   Che Guevara  -   Olga Benário e Prestes  -   Getúlio  -   Releituras

index história de vida escritas plásticas estudos não verbais contato